Estoril Classics Week - O triatlo dos automóveis. by Joel Araújo

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Topos & Clássicos #210 (Out. ‘18)

Galeria fotográfica
Estoril Classics Week

 

A causa faz o atleta

A forma ligeiramente arredondada da minha zona abdominal, resultante do meu excessivo interesse pela gastronomia franco-minhota, nunca me deixará ser um atleta, na designação tradicional. Contudo, nem só da condição física nasce um desportista e, na minha instância, a causa faz o atleta. De Braga a Lisboa são quatro horas de distância e, distorcendo a referência ao rock português, ao invés de ir ter com uma miúda, fui participar numa prova de triatlo. Uma que me faria percorrer a baixa de Cascais, a serra de Sintra e uns antigos baldios onde por norma faz muito vento, lá para os lados do Estoril. Estou a falar do Estoril Classics Week, provavelmente a melhor ideia para um evento, desde que inventaram o Bananeiro no Minho.

 
 
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Concours d’elegance

Já em Lisboa, ao seguir pelo comboio da linha de Cascais, num dia de um calor atípico de Outubro, entre calções de banho, toalhas de praia e havaianas encontrava-se um sujeito de boina, calça de vinco e blazer azul marinho, a caminho, não da praia, mas de um local bem mais adequado à objectificação obsoleta dos conceitos de riqueza e vaidade: um casino. A primeira paragem deste fim de semana foi o Concurso de Elegância organizado pelo ACP, nos Jardins do Casino do Estoril. Um cenário perfeitamente adequado a receber automóveis como o Citroen DS 21 Palm Beach, os Ferrari 166 MM e 500 Mondial, o Maserati 3500GT, os De Tomaso Pantera, o Alfa Romeo Spider 2000,o  Aston Martin DB2, entre outros, incluindo aquele que foi o meu preferido: um AC Aceca de 1956, rara e lindíssima peça pertencente à colecção de José Manuel Albuquerque.

 
O interesse pelo automóvel clássico é mais forte do que nunca, independentemente de faixa etária, da origem ou de condições económicas.
 

O Troféu "Best of Show" ficaria para o Ferrari 500 Mondial de André Villas-Boas, premiando o significado histórico deste exemplar mas, sobretudo, a originalidade e a preservação deste belíssimo automóvel de competição, que ostenta orgulhosamente as marcas do tempo.
Prova de que o universo dos clássicos em Portugal é vasto, mas concentrado, é a quantidade de amigos que encontrei no curto espaço de tempo que estive nos jardins do Casino, incluindo o António Miguel Paquete, amigo destas andanças e com quem aprendi imenso durante estes dias. A ele, ao pai, também António e restantes irmãos Henrique e Gonçalo, fico a dever toda a hospitalidade que recebi durante este fim de semana. As festividades no Casino prolongaram-se durante o resto do fim de semana e a quantidade de visitantes não deixa dúvidas que o interesse pelo automóvel clássico é mais forte do que nunca, independentemente de faixa etária, da origem ou de condições económicas.

 
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Elegância no Estoril, emoção em Sintra

Depois de uma tarde a passear pelos jardins com o Casino como pano de fundo, o final do dia aproxima-se, e com ele a mítica especial do Rally de Portugal Histórico na serra de Sintra, palco dos lendários ralis de Portugal na década de 80, carinhosamente lembrado por quem os presenciou, e marcado pelo incidente que a 5 de Março de 1986 acabou com o Grupo B. Trinta anos se passaram mas, não sei se por falta de meios, ou pelo simples desejo de manter o rigor histórico, as medidas de segurança à volta da estrada eram semelhantes às daquele tempo, com redes laranja a delimitar a zona de espectadores, sendo imediatamente sobrepostas pela vontade de estar mais perto das máquinas, com a ajuda de algumas cervejas a mais. Estava previsto que Miki Biasion abrisse a especial de Sintra aos comandos do Lancia Delta Integrale, modelo com que venceu por três anos consecutivos o Rally de Portugal, em 1988, 1989 e 1990. Ao que parece, o Integrale não colaborou. Contudo, os inúmeros fãs que esperavam ao frio por esta passagem, não deram o tempo por mal gasto, pois à estrela que se seguia, acrescentar-se-ia um cilindro e um som tão inconfundível como o da trovoada: falo do Audi Quattro que foi também conduzido por outro convidado especial do Estoril Classics Week, Stig Blomqvist.

A noite acabou pelas três da manhã, e ao fazer o check-in, lembro-me com alguma vergonha de ter ligado para a recepção do hotel a dizer chegaria “lá pelas 23h30 ou meia noite". Que ingénuo…

 
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Prato cheio no Autódromo do Estoril

Para me dar boleia até ao autódromo, recrutei o amigo Ricardo Santos, colega de profissão e o melhor ilustrador automóvel em Portugal (visitem o site dele e reconhecerão instantaneamente a quem me refiro: www.ricardo-car-artwork.com). O Ricardo trouxe o seu Peugeot 205 CTI e foi com a capota aberta, sob um sol fantástico, que chegámos ao primeiro de dois dias no Autódromo Fernanda Pires da Silva.

 
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O primeiro momento do dia foi a recriação da gincana do Rally de Portugal Histórico, que deixou um pouco a desejar no departamento da diversão, animado quase exclusivamente por Dominique Holvoet num Toyota Celica GT, a curvar em três ou duas rodas, e pelo Ford Escort RS2000 com pintura da Rothmans de Jean-Luc George que, já na noite anterior, tinha sido o preferido do público em Sintra. O circuito do Estoril teve uma vida difícil, mas não deixa de ter um traçado encantador e, no misto de novas e velhas infraestruturas, é possível delinear com alguma precisão alguns dos eventos históricos que mais marcaram a pista. Esta cronologia de marcos do circuito pode ser lida e vista com mais detalhe no delicioso livro “30 anos Circuito do Estoril”, que comprei por impulso antes do regresso ao norte.

 
Sob o pôr do sol do Estoril, ver a que foi, de longe, a prova mais emocionante do fim de semana: o Iberian Historic Endurance.
 

Entre os concorrentes e máquinas, somavam-se as provas do campeonato de F1 Classic, onde, sem surpresas, Martin Stretton dominou os seus adversários ao volante de um Tyrrell 012, com o lindíssimo verde da Benetton. Seguiam-se as provas de CSS grupo 1, com várias categorias, nas quais corria o Datsun 1200 ex-Team Dalva azul e laranja do amigo e conterrâneo Mané Loures, facilmente o carro mais bonito da grelha. Por momentos, as quatro rodas seriam trocadas por duas, no World GP Legends Riders, um momento que apesar de valer pela diversidade, falhou em trazer quantidade à grelha e, tal como nos Fórmulas, pecou pelo reduzido número de participantes, que por agravante tinham andamentos distintos, transformando as provas mais num desfile de beleza do que numa competição. Ainda assim, valeu a pena assistir, por ser uma oportunidade rara de ver em acção certas máquinas e pilotos lendários.

 
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Foi já no fim do dia e na companhia de mais um grupo de amigos - entre eles José Mota Freitas, Fernando Pinto da Fonseca, José Manuel Matos e Rui Queirós - que me sentei para um merecido descanso na bancada da Curva 1, para, sob o pôr do sol do Estoril, ver a que foi, de longe, a prova mais emocionante do fim de semana: o Iberian Historic Endurance. Uma prova de resistência de 50 minutos, considerada a melhor prova sul europeia do género, contando com a participação de viaturas de GT e Protótipos tão emblemáticos como os Ford GT40, Jaguar E-Type, Porsche 911 RS, Lotus Elan entre tantos outros.

No norte diz-se que “quem não é para comer, não é para trabalhar” e, portanto, este cansativo dia terminaria com um belo jantar junto ao Casino do Estoril, onde pontualmente se fechou os olhos às economias para uma refeição digna de um bom dia de corridas.

 
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Participar na festa

O último dia, no Estoril, foi especial. O fim de semana, na sua generalidade, havia sido dedicado a novas experiências, locais e pessoas, mas sempre de forma não combinada. E foi o que aconteceu por duas vezes no Domingo, a convite do amigo António Miguel Paquete. A primeira, a oportunidade de conduzir o MG Midget preto nas sinuosas estradas da serra de Sintra, a caminho da Lagoa Azul. O António levaria o Midget até lá e, no regresso ao circuito, seria eu aos comandos. Subitamente, dei por mim a tentar ajustar o totalmente ineficaz cinto de segurança, enquanto sentia a traseira do carro a fugir, enquanto o escape lateral me gritava aos ouvidos que a velocidade que levávamos seria bem para lá da recomendada naqueles caminhos. “O António está a jogar em casa, não tenho que me preocupar”, disse eu para os meus botões. Ao que ele remata, quase por telepatia “Não conheço bem estes caminhos, portanto estou a ir com cuidado”. E foi neste momento que senti medo. Para quem está habituado aos comandos de um Toyota, estava curioso em experimentar a sensação de conduzir um modesto, mas puro, desportivo britânico. Fiquei genuinamente surpreendido com o quão despachado era o pequeno Midget.

 
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Esta não seria a única surpresa do dia: Para terminar este Estoril Classic Festival em grande, mais uma vez a convite do António, tive a oportunidade de fotografar três voltas ao circuito do Estoril, sentado no banco traseiro de um raro Volvo 122S, de duas portas. Um carro em estado original e absolutamente irrepreensível, conduzido com algum cuidado pelo seu irmão, mais novo e recém encartado, Henrique Paquete, sob as indicações precisas do pai, como se a aprendizagem da trajectória perfeita do circuito fosse tão importante como aprender a tabuada na escola. É nestes momentos que me apercebo do que é viver realmente as corridas, e da forma como os automóveis podem estar tão enraizados na cultura de uma família, da mesma forma que outras vivem o futebol, a gastronomia ou outro qualquer interesse.

 
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Estoril Classics Week, provavelmente a melhor ideia para um evento, desde que inventaram o Bananeiro no Minho.
 

Do Estoril Classics Week trouxe as memórias de uma das reportagens que mais gostei de fazer. Um fim de semana em cheio, onde sinto que nada faltou. Os novos e antigos amigos, os diferentes locais, os automóveis, a fotografia e uma boa história para contar.
É afinal este o encanto deste tipo de eventos e espero que as emoções transmitidas, ainda mais do que os números, sirvam para convencer os leitores a viver a próxima edição.

 
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3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 3) by Joel Araújo

Tempo de leitura: 4 minutos
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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 3 - Domingo

Sunday, rainy Sunday.

Domingo, último dia em Goodwood, e com certeza o mais difícil. A cerveja da noite anterior não resultou em curar este início de gripe, e neste  Domingo, para além do frio e roupa molhada, tinha agora uma ressaca para aguentar. Foi um dia com uma moral oscilante. Por um lado, a minha condição física estava uma lástima devido aos 3 dias sob um clima extremo, que me apanhou totalmente de surpresa, tal foi a desgraça das previsões meteorológicas. Por outro, a consciência de estar naquele lugar tão mágico, e o rugir dos motores dentro de pista faziam de mim uma pessoa mais tolerante.

 
 

Uma despedida lenta

Eu, o Steve e o Ken tomamos o nosso último pequeno almoço em Goodwood (Bacon e salsichas, claro) e decidimos que, ao contrário dos dias anteriores, iriamos seguir caminhos diferentes e aproveitar para fazer algumas compras antes de regressar a casa. Na loja de Goodwood tudo custa uma quantia considerável de dinheiro, mas nunca vi uma marca ser explorada tão bem no que toca a merchandising com esta de Lord March. Ao fim da manhã aproveitei para visitar o paddock da Ecurie Ecosse, equipa escocesa lendária fundada por David Murray em 1951 e vencedores de LeMans em 1956 e 1957. Aproveitei também para ver uma última vez com mais tempo e atenção a exposição dedicada à TVR e ainda o Settrington Cup, composto apenas por modelos Austin em ponto pequeno, “conduzidos” a pedais por pequenos afortunados.

 
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A tarde prometia, e logo no início do meu turno dar-se-ia o tão esperado Royal Automobile Club TT, o pináculo das corridas de GTs de cockpit fechado, entre os quais um Bizzarrini 5300GT, dois Sunbeam Lister Tiger, um Lister-Jaguar coupé e o meu preferido (sou parcial) um TVR Griffith 400. A esta altura, tal como em grande parte do fim de semana, chuva era intensa, e era fantástico observar como mesmo nas retas, os concorrentes tinham dificuldade em segurar os cavalos, com as rodas motrizes a patinarem mesmo na relação mais alta. Outro momento a recordar foi o Barry Sheene Memorial Trophy, de motas clássicas de competição, conduzidas no limite sobre aquele pântano de asfalto.

 
 

A última corrida

A última corrida do Revival seria o Sussex Trophy, composto por carros que correram entre 1955 e 1960 no campeonato mundial de carros desportivos, entre eles vários Jaguar D-Type e o peculiar Maserati Tipo 61 “Birdcage”. É difícil para alguém como eu, nascido em 1990, conseguir reconhecer e acompanhar grande parte destes construtores, principalmente integrantes de uma cultura automóvel tão diferente da nossa em Portugal. Confesso que para escrever esta história tive que recorrer a várias cábulas e automobília que fui recolhendo durante a minha estadia em Goodwood.

 

O regresso

Estendida a última bandeira axadrezada, entre um misto de tristeza e alívio, era hora de regressar. A viagem de volta a Portugal foi penosa, aborrecida e não merece relato. Estava exausto, doente, sujo e molhado, mas com a alma repleta, e com uma vontade incontornável de voltar. Eu tenho que voltar. Quando em inícios de fevereiro decidi candidatar-me como voluntário para o evento, nunca esperaria sequer ser chamado, quando mais estar aqui sentado em frente ao teclado a escrever-vos esta história. Foi sem dúvida um dos pontos mais altos de 2017, e uma história para recordar. Posso dizer com certeza que Goodwood superou as minhas maiores expectativas.

 
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A derradeira conclusão

O Revival são os automóveis, as pessoas, o recinto, a viagem no tempo, mas acima de tudo é algo maior que a soma das suas partes. É um ambiente irreplicável em qualquer outra parte do mundo, e por isso é único. Apesar dos contratempos climáticos, para mim ser voluntário não foi difícil, mas se estás a ler isto e te está a passar pela cabeça fazer o mesmo, reflete bem nos teus motivos. A minha experiência como voluntário foi excelente, mas porque voluntariado não é algo novo para mim, e porque financeiramente não teria hipótese de ir de outra forma. Se tens essa possibilidade, vai a Goodwood como visitante. Comecem as poupanças.

 

Quero fazer um agradecimento especial ao Luís da Boys Ran Fast, por todo o apoio que me deu, cedendo todo o dresscode sem pedir nada em troca. Existe um sítio para encomendar indumentária automóvel vintage, e esse sítio é a www.boysranfast.com. Ao Ken, ao Steve por terem sido os meus protetores durante toda a minha estadia, e por terem salvo o campista desprevenido de uns dias que teriam sido bem piores. À Laurraine e a toda a equipa de voluntários com que partilhei as minhas tarefas na March Grandstand. À Elle e à Laura, as giríssimas coordenadoras dos mais de 200 voluntários do evento. A todos os meus amigos e familiares que não compreendem como não consigo poupar dinheiro. Para todos eles, já estou a pensar na próxima aventura, e ela até já aconteceu.

 
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Give me Goodwood on a summer’s day and you can forget the rest of the world
— Roy Salvadori
 
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Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1: Sexta-Feira
Dia 2: Sábado
Dia 3: Domingo

 

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Braga Racing Weekend 2018 by Joel Araújo

Tempo de leitura: 1 minuto
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Luta de gerações

Braga tem tudo o que é esperado de uma cidade contemporânea: A história, o futuro, a cultura, a cozinha e uma vontade enorme de festejar a vida. Tem tudo isto, e tem uma pista de corridas.

Pelo menos uma vez ao ano, o Campeonato Nacional de Clássicos visita o Circuito Vasco Sameiro, no habitual formato Braga Racing Weekend, um fim de semana onde gerações distintas se encontram tanto nas bancadas como dentro das linhas brancas.

Tive o prazer de fazer a reportagem fotográfica do Braga Racing weekend.
Podes ver as fotos na secção + CARS deste site, ou clicando aqui.

3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 2) by Joel Araújo

Tempo de leitura: 3 minutos
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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 2 - Sábado

Sábado trouxe alguma esperança à minha condição de cidadão mediterrânico em terras de sua tempestade. Saí da tenda e para minha surpresa, estava sol. No entanto, por esta altura, as verdes pastagens do acampamento e recinto deram lugar a um lamaçal interminável. Para sair da tenda só de botas. Para tomar banho só de botas. Mais uns dias em Goodwood e até dormir necessitaria de botas. Todos os veículos ou autocaravanas do “Campsite E” estavam de alguma forma marcados pela fúria da lama. Estou a falar do Triumph Stagg da tenda do vizinho, ou do Alfa Giulia GT mais lá ao fundo. Os britânicos não deixam que o tempo lhes estrague os planos. Dá-me a impressão que o português médio só tira o clássico da garagem ao Domingo quando o termómetro aponta os 24,3º, com humidade relativa perfeita, sem nuvens no céu e sem poeira no ar. Já o britânico é bem mais prático: Levar um Austin Healey 3000 para um parque de estacionamento onde até um Land Rover se veria aflito? Não há problema. Ver um Lotus Elan ou um MGA coberto de lama? Não há problema. Talvez agora compreenda porque em Portugal se vêem tão poucos clássicos na estrada, mesmo com o nosso clima que, digam o que disserem, é perfeito.

 
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O céu, a terra e o paraíso

Entrando no recinto para o 2º dia de Revival, eram 9h da manhã e por esta hora a pista já teria sido abençoada, num ritual que obriga todos os veículos a desligarem os seus motores. A manhã de sábado foi passada nas duas extremidades do recinto: Numa ponta, a grandiosa exposição aeronáutica Freddie March Spirit of Aviation, expondo vários aviões comerciais e de combate de meados do sec. XX, e no extremo oposto, literalmente “do lado de lá” em “Over the road”. Na feira popular havia, para além da comida e bares, vários stands a vender automobilia, arte motorizada, placas com pin-ups ou simplesmente marcas a promoverem as suas oficinas de restauro. Para além desta zona comercial onde encontrei o Ginetta G4 dos meus sonhos, foi à entrada do recinto que descobri que o chão do paraíso é revestido, não de nuvens de algodão ou de seda, mas sim de lama. Estou a falar do parque aberto dos clássicos. As regras estipulam que apenas os carros até 1974 podem entrar no Revival, uma lei um pouco mais relaxada que o limite de 1966 imposto dentro de pista. Não vos consigo explicar a proporção, diversidade e qualidade daquele parque de clássicos, já por isso tirei algumas fotos, para no futuro ter a certeza de que tudo aquilo não foi um sonho.

 
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A última noite em Goodwood

Depois de mais um turno de voluntário com a minha equipa de impermeáveis e sempre simpáticos Mark, Matthew, Richard, Stephen, Warren e Wendy, sob a supervisão da atenciosa Lorraine (que pediu explicitamente para a mencionar neste texto), a noite caia, e estava na hora de voltar ao lado de lá, para uma noite potentíssima, graças à força e trabalhar de 6 cilindros de 3 litros (de cerveja). Afinal de contas, precisava de afogar as mágoas depois de ter visto o Ferrari 250 LM de Andy Newall, um carro avaliado em dezenas de milhões de euros, a espatifar-se com força contra as barreiras. Isto é Goodwood, e é para isto que estes carros foram feitos.

 

Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1: Sexta-Feira
Dia 2: Sábado
Dia 3: Domingo

 
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3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 1) by Joel Araújo

Tempo de leitura: 5 minutos
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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 1 - Sexta-Feira

Eram 06:00 e eu não conseguia continuar na tenda. Não só pelo entusiasmo do meu primeiro dia a sério no Revival, mas pelo frio insuportável e níveis de humidade. Em Goodwood os galos também assinalam a alvorada, mas ao contrário das aves lusitanas, estes são de metal e têm um motor Rolls Royce Merlin de 12 cilindros. O som de um Spitfire a sobrevoar a tenda pela manhã é capaz de acordar os mortos, e eu para lá caminhava. Todos os dias a rotina era semelhante, a começar pelos dois pequenos-almoços: O primeiro, de base continental, à base de fruta, iogurte e cereais, não fazia mais que preparar o estômago para o verdadeiro pequeno-almoço: Salsicha e bacon acompanhados de um café quente. Em Goodwood os voluntários têm acesso à Staff Welfare Canteen, que serve refeições a “baixo custo” e refills ilimitados de café quente. Logo no primeiro dia, tive um daqueles momentos que, aos 26 anos, começo a ter vergonha de ter: Deixei a salsicha do prato rolar para o chão sem querer. Nada de mal. Acontece. No entanto:

Damn! My sausage fell off!

- Porque disso isto em voz alta, nunca vou entender.

 
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You’re too young to say that, sir!

- Responde-me prontamente a rapariga do bar. Com esta já não me safo.

 

Fora o pequeno almoço, as restantes manhãs eram passadas a visitar o máximo possível de coisas antes do início dos turnos de voluntário (sim, não nos esqueçamos que fui para Goodwood “trabalhar”). Num dos únicos locais secos de toda a herdade, o Earls Court Motorshow (réplica em tamanho pequeno da extinta exposição de Londres e Birmingham) pude finalmente encontrar-me com um dos meus ídolos de juventude: O regresso da TVR. Confesso que um dos motivos que me levou a Goodwood foi precisamente coincidir com o relançamento da “TreVoR”, a marca mais bizarra e fora da caixa de toda a história das marcas de carros construídos em barracões. Apesar do novo Griffith não me ter despertado o libido como desejaria, foi muito especial estar ao lado de modelos como o Tuscan, Cerbera ou o TVR S que de outra forma seriam impossíveis de ver ao vivo em Portugal.

 
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Recuar no tempo

A meio da manhã, as multidões já invadem o recinto, encarando personagens tão distintas como militares, mecânicos, lordes senhoriais ou militantes do exército da malha de lã da Escócia. Entre eles Ed China, com quem tive oportunidade de tirar uma foto, apesar do seu aparente aborrecimento perante o meu pedido. Do alto dos meus 183 centímetros de altura senti-me um anão ao lado deste senhor. Por esta hora, a roupa que vestia era mais da chuva do que minha. Sovina, só ma devolveu na Segunda-Feira seguinte.

 
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O primeiro turno

As 13h30 aproximavam-se, e com elas o meu primeiro turno. Não sei se por acaso ou simplesmente por pena, o meu posto como voluntário foi o mais fácil de todo o Staff. Imaginem esta rotina: Eestar mesmo em frente à March Grandstand, a bancada mais exclusiva e tranquila do evento, numa plataforma elevada mesmo em frente da grelha de partida, com vista privilegiada para a zona do paddock. Neste lugar, reconhecer visualmente quem tem ou não tem uma cadeira de rodas para poder subir à minha plataforma. Para além de manter os impostores fora deste espaço, teria que manter os ânimos calmos lá em cima, não fossem os meus convidados entusiasmarem-se com as corridas e começarem eles mesmos um batalha de carrinhos de choque dentro daqueles 20 metros quadrados. Foi basicamente isto que fiz durante todos os meus turnos: Segurança de um espaço de diversão diurno para pessoas com mobilidade reduzida. Tipo um lar, mas em que os hóspedes são viciados em gasolina e velocidade.

 
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A corrida mais bonita do mundo

Sexta-Feira foi maioritariamente um dia de treinos e qualificativas no circuito. Mas sem antes terminar com algo muito especial para oferecer: O Troféu Kinrara, “The Most beautiful race in the World”: Uma corrida de 1h com mudança de piloto, começando ao final do dia, e permitindo observar os últimos raios de luz incidir sobre as formas voluptuosas de carros tão icónicos como Chevrolet Corvette C1, AC Cobra, uma armada de Aston Martin DB4GT, Ferrari 250 SWB e Jaguar E-Type. Seria nesta corrida que teria o primeiro vislumbre do ritmo a que se corre em Goodwood. Imaginem a acção e cargas de ombro do troféu FEUP em Portugal, mas em vez de correr em Puntos, os carros estavam avaliados em milhões de euros. Toques, batidas, muita chapa amassada ou até acidentes aparatosos, como pude assistir com os meus próprios olhos quando o AC Cobra de Martin Hunt embateu em força contra os pneus da primeira curva ao falhar uma ultrapassagem arriscada. Acabando a corrida, acabaria também este primeiro dia nas pistas. Era hora de dar um salto “ao lado de lá” (Over the road) e ambientar-me ao espírito noturno do Revival. Ainda deu tempo para beber umas Pints da inocentemente rotulada  “Goodwood beer” e apreciar os vários concertos de rockabilly e dançar num verdadeiro baile dos anos 60. Eram 22h, e se em Portugal haveriam pessoas a sair dos seus trabalhos a essa hora, no Reino Unido essa é a hora oficial de ir dormir. Foi pena, mas a noite acabava mesmo a essa hora.

 

Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1: Sexta-Feira
DIa 2: Sábado
DIa 3: Domingo

 
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3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 0) by Joel Araújo

Tempo de leitura: 6 minutos
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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 0 - Quinta-Feira

Este texto começa pela sua conclusão: Se te consideras um fã de automóveis clássicos, vais ter que ir a Goodwood. Se abdicarias facimente das torradas e galão por um prato de salsichas e bacon, vais ter que ir a Goodwood. Se a tua pele é impermeável e não tens medo do frio, vais ter que ir a Goodwood. Mais importante que tudo, se o formato da tua cabeça é compatível com uma boina, vais ter que ir a Goodwood.

 
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O Prólogo

Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017, Porto, Aeroporto Sá Carneiro, temperatura agradável e sol convidativo a um passeio. Eu, limpo e seco, de boa saúde, bem alimentado e confortável. Que bem que começou este dia. Mas nem tudo correria bem, a começar pelos dois ataques epiléticos a bordo do voo que me levou até ao Reino Unido. Quando finalmente o avião desceu das nuvens, olhei para o céu e pensei para mim mesmo: "Troquei 30º de sol em Portugal por isto?" Ao que consta, voltaria a repetir esta frase várias vezes durante o fim de semana, num tom cada vez mais degradado e furioso.

 
 

O aeroporto eleito para a aterragem foi Gatwick. À data da viagem, não era a opção mais barata para aterrar na ilha, mas foi uma aposta mais segura. Dali a Chichester (leia-se “tshi-tshes-ter”) era apenas uma hora-e-meia de comboio direto, o que é bom quando o viajante tem tendência para se perder com facilidade. Ainda a 3km da herdade de Lord March, já era possível sentir uma azáfama invulgar para aquela pequena vila, mais tarde explicada por um dos taxistas: “Goodwood is in town, and everybody here benefits from it”, disse-me ele. Não duvidei. Afinal de contas, ano após ano, todos os quartos de hotel nas redondezas esgotam meses antes do evento.

 
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Com os pés em Goodwood

Ao fim de quatro parágrafos de texto, enfim que meto os pés no (por enquanto) relvado do recinto de Goodwood. Sensação estranha, confesso, principalmente depois de incontáveis horas a ver os vídeos e a acompanhar os diretos das provas. A mesma sensação de ver uma temporada inteira de Shark Tank Portugal na televisão, e ao estar em frente ao júri, aceitar que a nossa percepção do espaço varia consoante a experiência que vivemos num dado lugar. No caso de Goodwood, foi boa. Não posso dizer o mesmo dos estúdios da SIC.

Is that a satellite dish? Do you plan on watching Goodwood from TV?

Perguntou-me um senhor muito bem-disposto quando me dirigi ao check-in de voluntários, reparando na tenda gigante em forma de antena de satélite que trazia às costas. O sentido de humor britânico é reconhecido mundialmente, e este foi só um de muitos exemplos durante o fim de semana. Ao contrário da minha recente viagem à Índia, no Reino Unido faço-me passar facilmente por um local, como se o meu nome verdadeiro fosse James e tivesse acabado de chegar de Wales. Quando contava a alguém que na mesma manhã estivera a 2000 quilómetros de distância a apanhar sol e calor, uma de duas reações era garantida: A de entusiasmo, por verem alguém de “tão longe” a voluntariar-se. A segunda, uma expressão de profunda tristeza, como quem antecipa um “Pobre coitado, onde te foste meter”.

 
 

Os meus novos amigos

No acampamento, fiz amizade imediata com os dois senhores da tenda ao lado: O Steve e o Ken, ambos de Liverpool, que tentarei visitar na minha próxima viagem ao Reino Unido. Agora que penso, “fiz amizade” é um pleno eufemismo, face à ajuda que me deram durante estes atribulados dias. Tendas montadas, eram 5h da tarde, e ainda havia tempo para dar uma volta pelo recinto antes que este fosse invadido pelas massas de aristocratas, mecânicos e restante público. Uma das principais vantagens como voluntário é o acesso total a todas as áreas do evento, com exceção do Rolex Drivers Club. Diz a lenda que “Não entrarás no Rolex Drivers Club”. Em Goodwood os automóveis são apenas uma parte da magia. O recinto é lindíssimo, onde nenhum pormenor é deixado ao acaso: desde a relva sempre impecável e flores cuidadas, à decoração “period correct” dos stands de comida, dos transportes de visitantes, dos showrooms, dos paddocks, das publicidades nas bancadas… Tudo é feito de forma a garantir o máximo nível de imersão à imagem das décadas douradas do desporto automóvel. Por outro lado, apesar da notável obsessão com o detalhe, o evento nunca perde aquele toque familiar e flexível com o seu staff.

 
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A zona das boxes estava organizada em corredores divididos por marcas, classes, equipas e período histórico. Leva tempo a digerir uma fileira de AC / Shelby Cobra, ou de Ferrari, incluindo o 250 LM que teve um final menos feliz em pista no Sábado. Não querendo descurar todos os Maserati, Lotus, Jaguar, Brabham, Lister, Lola ali estacionados. Sem me aperceber, acordei para um exame de história da competição automóvel, abrangendo décadas de lendas e feitos, e a má notícia é que não estudei. Antes do sol se pôr em Goodwood, tive oportunidade de ver os últimos preparativos na “Over the road”, uma feira popular de outros tempos, repleta de bares e bailes, onde convidados, pilotos e público se reuniam para beber uma cerveja quando acaba a ação nas pistas. Nunca imaginei terminar este dia de recepção numa tenda a beber Gin com dois recém conhecidos, o Steve e o Ken. Algo que cedo se mostrou benéfico, dando uma ajuda nesta primeira noite de frio extremo. Cedo me apercebi que todas as previsões que vi em Portugal tinham saído ao lado, e que não ia ser um fim de semana fácil para um friorentos.

 
 

Advertência:

Nota: se querem ver fotos incríveis do evento, não serei eu a mostrar-vos. Da minha parte só irão ver fotos ranhosas tiradas de um Motorola G2, e o meu arrependimento é nulo. Levei uma câmera emprestada (sem o dono saber), mas nem a tirei da mochila. Primeiro, porque metal e plástico não boiam. Segundo, porque as lentes também não. Felizmente o mundo é um lugar cheio de gente talentosa, como a Amy Shore, Dave Adams, Tom Shaxson, Antoine Dellenbach entre tantos outros ídolos que marcaram presença fora das linhas brancas e registaram o evento como um dia eu sonho fazer.

 

Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1:
 Sexta-Feira
Dia 2: Sábado
Dia 3: Domingo

 
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The Indian Job - Pt.3 "O trânsito em Nova Delhi" by Joel Araújo

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A batalha

Conduzir em Nova Delhi é uma batalha que só se vence por atrito.
Recentemente a Índia ultrapassou a França e é neste momento a 6ª maior potência económica do mundo.
Sem querer elaborar, imagino que a abundância de vias de comunicação, a qualidade das infraestruturas rodoviárias e a velocidade a que elas permitem a circulação de pessoas, mercadorias e ideias sejam determinantes nestes rankings.
Não na Índia.

As estradas (...) são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas.

Na Índia não se chega rápido a lado nenhum. O pára-arranca ainda é a regra e não a excepção reservada às horas de ponta. Exemplifiquemos: O hotel onde me encontro, situa-se a sensivelmente 2 km dos escritórios para onde tenho que me deslocar diariamente. Apesar de ser norma partir do hotel pelas 9h15 da manhã, fazer os 2000 metros até ao destino já demorou entre 15min a 2h. Esta janela de tempo é influenciada por seis factores diferentes, alguns deles de natureza humana, outros não.

 
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O Clima:
Julho e Agosto é o pico das monções na Índia. O sistema de escoamento de águas é deficiente, quando não é inexistente. Quando chove o trânsito não anda, é tão simples como isto. Submerso em cada poça de água pode estar uma pedra, um buraco, ou até pode nem estar nada. Mas o risco não vale pela aventura, então toda a gente vai à volta, o que, em todos os casos, implica enfrentar de frente o trânsito inverso.

 

O condutor:
O nosso meio de transporte principal é o shuttle do Hotel, que é gratuito num raio considerável. Vamos rodando à boleia com diferentes carros e condutores da frota, e o fascinante é que cada um segue caminhos diferentes para fazer a mesma viagem. Todos eles com as suas particularidades e obstáculos, mas igualmente morosos entre si. Nos dias em que não há shuttle disponível, o hotel chama um Taxi privado, daqueles que gostam de mostrar a paisagem aos turistas, vocês percebem.

 

O ecossistema rodoviário:
As estradas, sejam elas secundárias ou principais, são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas: Os automóveis são rápidos e confortáveis, mas precisam de espaço para circular. Os Tuk Tuk são mais pequenos que um automóvel, mas maiores que uma mota ou bicicleta, com a vantagem que transportam mais gente. Os carrinhos de venda ambulantes são empurrados por pessoas, logo são lentos, mas têm a habilidade especial de vender chamuças. Os camiões são grandes e carregam muita gente ou mercadorias, mas o seu poder só fica activo entre o pôr e o nascer do sol. A carta mais forte, contudo, é a vaca. Apesar de não ser um meio de transporte nem ter utilidade na via pública, se lhes tocas, acaba o jogo.

 

Os pedestres:
Quem anda a pé também faz parte do trânsito, quer queira, quer não. Os passeios para pedestres existem, mas grande parte das vezes não servem o seu propósito original.
Quero dizer: Ou estão ocupados com carros, motas ou bicicletas estacionados ou, na pior das hipóteses, por lixo ou lama, e ninguém gosta de chegar ao trabalho com os sapatos cobertos de lama. Nestas condições, é mais seguro andar a pé no meio da estrada do que na berma.

 

A condição das estradas:
A degradação das estradas é um processo visível a olho nu, sem preciso olhar com atenção. Estradas que ainda há 2 meses atrás eram “boas”, hoje têm buracos que desafiam até os mais aptos Jeep (cof cof) Mahindra a circular. A organização dos acessos, vias de aceleramento e abrandamento, cruzamentos e pontos de inversão de marcha são também, no mínimo, abstratos e totalmente abertos a interpretação.

 
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Velocidade média:
Este não é tanto um factor em si, mas uma consequência. A velocidade média numa estrada normal em Nova Delhi não ultrapassará os 20km/h. Ainda assim, temendo que esta velocidade seja exagerada, foram instaladas lombas enormes por todo o lado, e nem as Expressways, as autoestradas mais liberais, se livram de abrandadores artificiais.

 

Conclusões:
Todas estas condicionantes levaram os condutores a adoptar comportamentos que, a curto prazo parecem ajudar, mas na verdade só dificultam ainda mais o exercício da condução nesta cidade. Uma estrada com duas faixas de rodagem é facilmente ocupada por 5 filas paralelas de carros.

Mais carros a circularem no mesmo espaço significa bom aproveitamento do espaço, não?

– Não.

A acompanhar esta fricção, não esquecer a banda sonora oficial das estradas indianas:
A buzina. Felizmente, na Índia, buzinar não é visto como o acto ofensivo e insultuoso que reconhecemos em Portugal. Aqui, buzinar não é fazer mais do que acionar um sonar para avisar todos os veículos próximos da nossa presença.
Não é raro ver-se escrito “Por favor apita” na traseira de Taxis, camiões ou carrinhas.

E é por isto que eu adoro a Índia.
 

Próximo episódio:
Pt.4:
"Uma autoestrada na Índia"
 

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