Como não subir a Falperra. / by Joel Araújo

Tempo de leitura: 6 minutos

Fotografia: Cristiano Loureiro, Mariana Sá, Catarina Peixoto

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Uma vez por ano, os papéis invertem-se e é o homem que pede à esposa para ir com os amigos rezar ao Santuário do Sameiro em Braga. “Precisas da motosserra para rezar?” - pergunta a mulher, assumindo que o gerador a gasóleo e o frigorífico de cerveja servirão para um piquenique depois da missa. “Se a girar no ar enquanto acelero, dá sorte. Disseram-me uns amigos de Fafe!” - Responde o homem. Tal como em Ponte de Lima se celebra o encontro nacional da Ford Transit em Setembro, na Falperra, operadores de motosserra de todos os cantos do país juntam-se para mostrar as suas habilidades, passando um fim de semana rústico na montanha, apesar do tempo incerto, e da falta de sombra este ano.

 
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A Rampa da Falperra, apesar dos seus péssimos acessos pedonais em torno da pista, apesar de todo o lixo que o público abandona na floresta, apesar dos seus paddocks claustrofóbicos, é uma prova obrigatória para qualquer fã de automobilismo no norte de Portugal. De todas as rampas a que já pude assistir, nunca vi uma com um público tão vibrante e apaixonado. Tal como um jogo da selecção nacional, é um evento que atrai até aqueles que não ligam à modalidade. O automobilismo precisa disto: Atrair as massas. E as massas não são os entendidos em desporto ou em automóveis. São todos aqueles curiosos que vibram com o barulho, com a velocidade e com todos os excessos que um carro de corrida representa. Se a isso juntarmos amigos, família e cerveja, o que pode correr mal?

 
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O automobilismo precisa disto: Atrair as massas. E as massas não são os entendidos em desporto ou em automóveis.
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Ao contrário de 2017, onde fui ver a rampa como um recém-chegado a Braga, este ano levei um plano ou, na verdade, três: Consegui arrastar para o monte o Cristiano, Chico, Miguel, a Mariana e a Catarina, todos amigos de trabalho na Gen. Munidos de uma arca com “aperitivos”, uma manta e acessórios, nos quais não se incluía um saca-rolhas, combinámos uma hora bem cedo no início da rampa. Este era o 1º plano. Vergonhosamente, eu fui o último a chegar, devido ao 2º e 3º planos. Passo a explicar: Todos os anos o CAM (Clube Automóvel do Minho) organiza uma subida da rampa em desfile, com vários clássicos inscritos pertencentes ao público em geral. Este ano, ouvi dizer, devido a restrições horárias impostas pela federação, o desfile seria muito mais contido, apenas aberto a 20 carros, com a obrigatoriedade de serem já sócios do CAM. Não consigo confirmar que isto seja verdade, mas parece-me ser uma razão lógica. Tentei fazer a minha inscrição, mas não sendo sócio, não seria possível. Como estamos em Portugal, o factor C provavelmente seria uma boa solução, até porque no desfile final estavam bem mais que 20 carros. Contudo, para o Joel, Cunha só se for uma francesinha. Propus então uma solução prática e vantajosa a todas as partes: Falei com o meu 3º patrão, o Hugo Reis da T&C, e sugeri ir fazer a história da Rampa, a que estão a ler neste momento, a troco de conseguir integrar o desfile, onde a perspectiva para a fotografia e para o próprio texto seriam uma mais valia para o artigo final. Ficou tudo combinado, e “só teria que integrar o desfile à hora marcada”. Seria tudo tão simples, não seria? Pois claro que não foi.

 
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O que se seguiu durante o resto do dia foi o jogo do gato e do rato, num constante desvio de pontos de controlo, e pedidos de desculpas aos elementos das forças de segurança.

Apesar de estar autorizado pelo CAM a levar o Corolla ao desfile, não me tinha sido atribuída nenhuma credencial nem o “dístico verde” de acesso ao recinto. Um pequeno retângulo de cartão pintado de verde, que durante este dia valia por uma barra de ouro, ao que percebi. O dispositivo de segurança montado em torno da rampa era de uma eficiência tão feroz que o meu carro, apesar de combinado com a organização, não arranja forma de entrar. O que se seguiu durante o resto do dia foi o jogo do gato e do rato, num constante desvio de pontos de controlo, e pedidos de desculpas aos elementos das forças de segurança. Tinha permissão para estar ali, mas como a burocracia não foi tratada da melhor forma, eu era basicamente um impostor no evento, apesar de ter todo o direito de estar ali. Não é uma boa sensação. Depois de me esquivar a 3 postos de controlo, consegui estacionar o carro mesmo junto ao início da rampa, no local onde partiria o desfile umas horas mais tarde. Finalmente juntei-me ao resto do grupo, já desesperado, um pouco antes da curva do Hotel, dando início à petiscada, e aproveitando o local propício a umas boas fotos. Em 2017 parei no mesmo sítio da subida, ainda assim, estava com sérias dificuldades em reconhecer o local: Os incêndios do último trimestre do ano passado devastaram completamente a zona da Falperra, estando ainda bem presentes as cicatrizes provocadas pelos fogos.

 
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A partir deste momento, estava “ilegal” no desfile.

Perto do meio-dia, teria sido pedido aos participantes do desfile que se juntassem junto à partida, e foi isso que tentei fazer. Neste momento, a única coisa que separava o meu Corolla e o ponto de encontro era um último posto de controlo da polícia. Mais uma vez, sem surpresas, não me deixaram passar. Neste momento, os clássicos já estavam a alinhar, e a partida seria a qualquer momento. Contactei os elementos designados do CAM para me ajudarem, mas a única forma da polícia me deixar passar era ser indicado presencialmente por algum organizador. No meio da confusão, e já sobrecarregados pelos encargos da prova, a última coisa que eu queria era estar a chatear alguém da organização por causa de um mero acesso. Aproveitei um breve momento de rebuliço no posto de controlo e, sem ser visto e sem autorização, entrei com o carro para a zona oficial do desfile. A partir deste momento, estava “ilegal” no desfile. E se o agente da PSP tivesse reparado, estava no direito de me acusar de desobediência a uma ordem policial. Extremamente nervoso, apressei os meus amigos a que entrassem rapidamente no carro para nos disfarçarmos no meio dos carros estacionados para o desfile. Com sorte, tudo resultou, e em breve estaríamos a subir a rampa da Falperra atrás de um 2CV demoníaco e à frente (apenas momentaneamente) de um Ford Mustang enraivecido. Os 68cv do Toyota cedo se mostraram insuficientes para subir a rampa a um ritmo considerável transportando mais 3 pessoas no carro. No carro ou no barco, a julgar pelo rolamento em curva.

 
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No fim tudo acabou bem, e poder subir a rampa da Falperra vendo o público do ângulo da estrada é fantástico. As tendas, as barraquinhas improvisadas, os spots publicitários, as fitas de segurança, mas principalmente a quantidade de gente a assistir fazem-me ter a certeza que, apesar das suas falhas, a Falperra é um evento demasiado especial para se perder. Um dia para partilhar esta paixão com os amigos, ver e rever outros tantos, e desfrutar de um local que, apesar de fustigado por recentes infortúnios, continua a ser lindíssimo. Para o ano lá estaremos.

 
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