The Indian Job - Pt.2 "Branco mais branco, não há" / by Joel Araújo

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Episódios anteriores:
Pt1:
 “Normal speed suits every need”

Branco mais branco, não há

Lidar com os números

Existem 9 milhões de bicicletas em Pequim. É um facto. Ninguém o pode negar. É uma pena que nunca ninguém tenha escrito uma canção sobre os 10 milhões de veículos registados em Nova Delhi. Imaginem uma mistura enriquecida pela textura e cor do Punjabi, com o ritmo frenético e caótico do Punk-Hardcore e o exercício de paciência de 30 minutos em que no fim não se chega a lado nenhum, como em qualquer música de Post-Rock. Temo que não seja a receita ideal para um Grammy, ainda assim 10 milhões é um número impressionante, sejamos sinceros. Contudo, não é a quantidade que é importante aqui. “Olha, sabias que Nova Delhi tem tantos carros como Portugal tem habitantes?”. Daquelas informações tão relevantes como saber que na Suíça é proibido possuir apenas um porquinho da guiné. A verdade é que, em Nova Delhi, os engarrafamentos e trânsito fazem parte da cultura rodoviária, e não é só pelos números exagerados. Todos os veículos fazem parte de uma dança descoordenada, sem nunca se tocarem, sem nunca se enervar, sem nunca reclamar. Não existe pressão social para conduzir bem na Índia, e quando ninguém leva a mal, é porque deve estar tudo bem.

 
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A invasão nipónica
Para além de música, o trânsito de Nova Delhi relembra-me constantemente da lenda popular das amendoeiras. A princesa do norte aqui também tem saudades de neve, com a única diferença que nem um rei consegue espaço nesta cidade para plantar as árvores de flor branca. A solução para este problema necessitaria de um toque de improviso indiano: Pintar todos os carros de branco garante que a princesa nunca volte a sentir saudades de casa: Seja a andar de Táxi, Uber, carro privado, autocarro, carrinha de transporte de mercadorias, camião ou Tuk Tuk elétrico. Todos os veículos nesta cidade são brancos.

O povo da índia é vaidoso, e o seus carros não são excepção.

Todos, apenas com duas excepções: Os Tuk Tuk normais, que são verdes e amarelos, e carros alemães. Os carros alemães (não que veja muitos) são todos vermelhos, por alguma razão. Eu devia estar feliz, afinal 90% dos carros desta cidade são Japoneses, com alguns Tata e Hyundai à mistura. Ainda assim, há algo na sensação de ver constantemente Toyotas, Suzukis e Hondas com nomes estranhos de há 2 gerações atrás que não preenche a alma. Principalmente quando não há um carro nesta cidade que não tenha um pára-choques batido, uma porta empenada, um vidro rachado, uma jante riscada. Não que isto seja importante, visto que a única comodidade obrigatória nos carros indianos é ter o ar condicionado a funcionar. O resto pode esperar.

 
 

A vaidade das massas
Não me interpretem mal. O povo da índia é vaidoso, e o seus carros não são excepção. Não é raro ver carros decorados com fitas vermelhas (de presente), jantes especiais, barras de proteção, figuras religiosas e decorativas no tablier e decorações coloridas. E por falar em decorações coloridas, não vão acreditar no nível de detalhe e mestria presente nas pinturas dos camiões de transporte de carga. O último que vi tinha farolins em forma de sardinha, não estou a gozar. Desengane-se quem pensa que no meio deste parque automóvel variado, o Tuk Tuk é veículo de segunda. O último em que andei tinha faixas de leds coloridas no tejadilho que piscavam como uma discoteca, ou boate foleira, vá. Na “bagageira” o subwoofer deixaria envergonhados muitos condutores de Ibizas ou Civics em Portugal, além de que o condutor só parava o shuffle quando garantisse que era mesmo a música que nos queria mostrar.

Não tem sido aborrecido, não. Ainda assim, é quando baixo a guarda que aparece um BMW M4, um Rolls Royce Ghost ou até um Maybach 57 (ou 62?). Bravos e corajosos, estes felizes afortunados.

Próximos episódios:
Pt.3: "O trânsito em Nova Delhi"
Pt.4: "Uma autoestrada na Índia" (para terminar em beleza)

 
 

Esta história foi
escrita ao som de:

 

London Grammar
Truth is a Beautiful Thing
(2017)