The Indian Job - Pt.3 "O trânsito em Nova Delhi" / by Joel Araújo

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A batalha

Conduzir em Nova Delhi é uma batalha que só se vence por atrito.
Recentemente a Índia ultrapassou a França e é neste momento a 6ª maior potência económica do mundo.
Sem querer elaborar, imagino que a abundância de vias de comunicação, a qualidade das infraestruturas rodoviárias e a velocidade a que elas permitem a circulação de pessoas, mercadorias e ideias sejam determinantes nestes rankings.
Não na Índia.

As estradas (...) são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas.

Na Índia não se chega rápido a lado nenhum. O pára-arranca ainda é a regra e não a excepção reservada às horas de ponta. Exemplifiquemos: O hotel onde me encontro, situa-se a sensivelmente 2 km dos escritórios para onde tenho que me deslocar diariamente. Apesar de ser norma partir do hotel pelas 9h15 da manhã, fazer os 2000 metros até ao destino já demorou entre 15min a 2h. Esta janela de tempo é influenciada por seis factores diferentes, alguns deles de natureza humana, outros não.

 
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O Clima:
Julho e Agosto é o pico das monções na Índia. O sistema de escoamento de águas é deficiente, quando não é inexistente. Quando chove o trânsito não anda, é tão simples como isto. Submerso em cada poça de água pode estar uma pedra, um buraco, ou até pode nem estar nada. Mas o risco não vale pela aventura, então toda a gente vai à volta, o que, em todos os casos, implica enfrentar de frente o trânsito inverso.

 

O condutor:
O nosso meio de transporte principal é o shuttle do Hotel, que é gratuito num raio considerável. Vamos rodando à boleia com diferentes carros e condutores da frota, e o fascinante é que cada um segue caminhos diferentes para fazer a mesma viagem. Todos eles com as suas particularidades e obstáculos, mas igualmente morosos entre si. Nos dias em que não há shuttle disponível, o hotel chama um Taxi privado, daqueles que gostam de mostrar a paisagem aos turistas, vocês percebem.

 

O ecossistema rodoviário:
As estradas, sejam elas secundárias ou principais, são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas: Os automóveis são rápidos e confortáveis, mas precisam de espaço para circular. Os Tuk Tuk são mais pequenos que um automóvel, mas maiores que uma mota ou bicicleta, com a vantagem que transportam mais gente. Os carrinhos de venda ambulantes são empurrados por pessoas, logo são lentos, mas têm a habilidade especial de vender chamuças. Os camiões são grandes e carregam muita gente ou mercadorias, mas o seu poder só fica activo entre o pôr e o nascer do sol. A carta mais forte, contudo, é a vaca. Apesar de não ser um meio de transporte nem ter utilidade na via pública, se lhes tocas, acaba o jogo.

 

Os pedestres:
Quem anda a pé também faz parte do trânsito, quer queira, quer não. Os passeios para pedestres existem, mas grande parte das vezes não servem o seu propósito original.
Quero dizer: Ou estão ocupados com carros, motas ou bicicletas estacionados ou, na pior das hipóteses, por lixo ou lama, e ninguém gosta de chegar ao trabalho com os sapatos cobertos de lama. Nestas condições, é mais seguro andar a pé no meio da estrada do que na berma.

 

A condição das estradas:
A degradação das estradas é um processo visível a olho nu, sem preciso olhar com atenção. Estradas que ainda há 2 meses atrás eram “boas”, hoje têm buracos que desafiam até os mais aptos Jeep (cof cof) Mahindra a circular. A organização dos acessos, vias de aceleramento e abrandamento, cruzamentos e pontos de inversão de marcha são também, no mínimo, abstratos e totalmente abertos a interpretação.

 
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Velocidade média:
Este não é tanto um factor em si, mas uma consequência. A velocidade média numa estrada normal em Nova Delhi não ultrapassará os 20km/h. Ainda assim, temendo que esta velocidade seja exagerada, foram instaladas lombas enormes por todo o lado, e nem as Expressways, as autoestradas mais liberais, se livram de abrandadores artificiais.

 

Conclusões:
Todas estas condicionantes levaram os condutores a adoptar comportamentos que, a curto prazo parecem ajudar, mas na verdade só dificultam ainda mais o exercício da condução nesta cidade. Uma estrada com duas faixas de rodagem é facilmente ocupada por 5 filas paralelas de carros.

Mais carros a circularem no mesmo espaço significa bom aproveitamento do espaço, não?

– Não.

A acompanhar esta fricção, não esquecer a banda sonora oficial das estradas indianas:
A buzina. Felizmente, na Índia, buzinar não é visto como o acto ofensivo e insultuoso que reconhecemos em Portugal. Aqui, buzinar não é fazer mais do que acionar um sonar para avisar todos os veículos próximos da nossa presença.
Não é raro ver-se escrito “Por favor apita” na traseira de Taxis, camiões ou carrinhas.

E é por isto que eu adoro a Índia.
 

Próximo episódio:
Pt.4:
"Uma autoestrada na Índia"
 

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