64 / by Joel Araújo

Tempo de leitura: Com tempo.
  Esta fotografia foi tirada em Outubro de 2015, na Expo Clássicos de Guimarães com o tema “transportes públicos de passageiros”.
 

Outubro de 2015 - Expo Clássico de Guimarães
Nunca quis publicar esta fotografia.
Não sou supersticioso, mas ocasionalmente tenho um presságio, e quando revia as fotos desta coleção e vi o meu pai dentro deste autocarro clássico da STCP, o momento ficou-me impresso na memória.

 

Há três vidas atrás.
Em Outubro de 2015 a minha vida era muito diferente do que é hoje.
Por esta altura seria ainda um mero apreciador de clássicos (ainda o sou) sem qualquer compromisso ou ambições neste meio; O meu primeiro carro estava ainda a um mês de existir; O blog, os amigos dos clássicos, a T&C, esta segunda vida, eram ainda poeira cósmica aguardando o momento de se materializar.

Em Outubro de 2015 lembro, contudo, que a ideia de ter um clássico já existia. O meu pai opunha-se a ela, dizia que um carro antigo só dava dores de cabeça, mas sabia que tão teimoso como ele, só eu.
Enquanto me tentava demover da ideia, era capaz de ligar a uns quantos anúncios de clássicos à venda para regatear preços. Uma prática que se manteve até ao Corolla KE20 que possuo hoje.

Um automóvel é sempre dispendioso, seja ele qual for. E apesar de ser um desejo que alimentava há algum tempo, foi um luxo ao qual voluntariamente me privei, por duas razões: Porque preferia não ter carro do que ter um qualquer, mas sobretudo porque no fim de 2015, depois de quase 3 anos a dar a alma numa startup que co-fundei, as minhas poupanças não eram propriamente invejáveis.
Uma realidade que não será novidade para qualquer um que tenha feito parte do boom do empreendedorismo nacional que então corria a todo o vapor.

 

Há duas vidas atrás.
Foi no preciso dia em que tirei esta foto do meu pai em Guimarães, na mostra de transportes públicos de passageiros, que recebi a chamada que me levaria ao primeiro emprego pós-startup, e à necessidade iminente de possuir um meio de transporte mais eficiente que os disponibilizados pela trágica instituição aveirense MoveAveiro, cidade onde morava.
Um mês depois, já convertido, o meu pai iria comigo a Vila Nova de Gaia ver e fazer o registo de um Toyota Starlet EP70 XL vermelho de 1988.

 

Há uma vida atrás.
Se não tivesse um pai que acreditasse e investisse no meu sonho, mesmo não concordando com ele, hoje não estaria a escrever este texto, nem escreveria a primeira linha para o blog que viria a moldar a minha vida como nunca imaginei, o Tu Precisas de um Clássico, que passo a citar:

Um dos grandes motivadores para a criação deste espaço foi o meu pai (mas ele não sabe).
— 15 de Janeiro de 2016 - tuprecisasdeumclassico.com

Hoje.
Hoje, 6 de Agosto, o meu pai faria 64 anos de idade, e esta história é dedicada a ele.
Uma história que é contada ao contrário, onde é o filho que ensina o pai a gostar de clássicos, que o leva aos encontros e o convence que afinal ter um clássico não é só dores de cabeça.

Fazes-me falta.

 
 

À minha mãe, irmã, à minha sobrinha Leonor, família, e a todos os amigos que durante estes 2 meses fizeram com que cada dia fosse um pouco mais fácil de viver. 

Obrigado.