The Indian Job - Pt.3 "O trânsito em Nova Delhi" by Joel Araújo

Tempo de leitura: 5 minutos
IMG_20180730_184240.jpg
 
 

A batalha

Conduzir em Nova Delhi é uma batalha que só se vence por atrito.
Recentemente a Índia ultrapassou a França e é neste momento a 6ª maior potência económica do mundo.
Sem querer elaborar, imagino que a abundância de vias de comunicação, a qualidade das infraestruturas rodoviárias e a velocidade a que elas permitem a circulação de pessoas, mercadorias e ideias sejam determinantes nestes rankings.
Não na Índia.

As estradas (...) são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas.

Na Índia não se chega rápido a lado nenhum. O pára-arranca ainda é a regra e não a excepção reservada às horas de ponta. Exemplifiquemos: O hotel onde me encontro, situa-se a sensivelmente 2 km dos escritórios para onde tenho que me deslocar diariamente. Apesar de ser norma partir do hotel pelas 9h15 da manhã, fazer os 2000 metros até ao destino já demorou entre 15min a 2h. Esta janela de tempo é influenciada por seis factores diferentes, alguns deles de natureza humana, outros não.

 
IMG_20180713_184306.jpg

O Clima:
Julho e Agosto é o pico das monções na Índia. O sistema de escoamento de águas é deficiente, quando não é inexistente. Quando chove o trânsito não anda, é tão simples como isto. Submerso em cada poça de água pode estar uma pedra, um buraco, ou até pode nem estar nada. Mas o risco não vale pela aventura, então toda a gente vai à volta, o que, em todos os casos, implica enfrentar de frente o trânsito inverso.

 

O condutor:
O nosso meio de transporte principal é o shuttle do Hotel, que é gratuito num raio considerável. Vamos rodando à boleia com diferentes carros e condutores da frota, e o fascinante é que cada um segue caminhos diferentes para fazer a mesma viagem. Todos eles com as suas particularidades e obstáculos, mas igualmente morosos entre si. Nos dias em que não há shuttle disponível, o hotel chama um Taxi privado, daqueles que gostam de mostrar a paisagem aos turistas, vocês percebem.

 

O ecossistema rodoviário:
As estradas, sejam elas secundárias ou principais, são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas: Os automóveis são rápidos e confortáveis, mas precisam de espaço para circular. Os Tuk Tuk são mais pequenos que um automóvel, mas maiores que uma mota ou bicicleta, com a vantagem que transportam mais gente. Os carrinhos de venda ambulantes são empurrados por pessoas, logo são lentos, mas têm a habilidade especial de vender chamuças. Os camiões são grandes e carregam muita gente ou mercadorias, mas o seu poder só fica activo entre o pôr e o nascer do sol. A carta mais forte, contudo, é a vaca. Apesar de não ser um meio de transporte nem ter utilidade na via pública, se lhes tocas, acaba o jogo.

 

Os pedestres:
Quem anda a pé também faz parte do trânsito, quer queira, quer não. Os passeios para pedestres existem, mas grande parte das vezes não servem o seu propósito original.
Quero dizer: Ou estão ocupados com carros, motas ou bicicletas estacionados ou, na pior das hipóteses, por lixo ou lama, e ninguém gosta de chegar ao trabalho com os sapatos cobertos de lama. Nestas condições, é mais seguro andar a pé no meio da estrada do que na berma.

 

A condição das estradas:
A degradação das estradas é um processo visível a olho nu, sem preciso olhar com atenção. Estradas que ainda há 2 meses atrás eram “boas”, hoje têm buracos que desafiam até os mais aptos Jeep (cof cof) Mahindra a circular. A organização dos acessos, vias de aceleramento e abrandamento, cruzamentos e pontos de inversão de marcha são também, no mínimo, abstratos e totalmente abertos a interpretação.

 
IMG_20180711_183356.jpg

Velocidade média:
Este não é tanto um factor em si, mas uma consequência. A velocidade média numa estrada normal em Nova Delhi não ultrapassará os 20km/h. Ainda assim, temendo que esta velocidade seja exagerada, foram instaladas lombas enormes por todo o lado, e nem as Expressways, as autoestradas mais liberais, se livram de abrandadores artificiais.

 

Conclusões:
Todas estas condicionantes levaram os condutores a adoptar comportamentos que, a curto prazo parecem ajudar, mas na verdade só dificultam ainda mais o exercício da condução nesta cidade. Uma estrada com duas faixas de rodagem é facilmente ocupada por 5 filas paralelas de carros.

Mais carros a circularem no mesmo espaço significa bom aproveitamento do espaço, não?

– Não.

A acompanhar esta fricção, não esquecer a banda sonora oficial das estradas indianas:
A buzina. Felizmente, na Índia, buzinar não é visto como o acto ofensivo e insultuoso que reconhecemos em Portugal. Aqui, buzinar não é fazer mais do que acionar um sonar para avisar todos os veículos próximos da nossa presença.
Não é raro ver-se escrito “Por favor apita” na traseira de Taxis, camiões ou carrinhas.

E é por isto que eu adoro a Índia.
 

Próximo episódio:
Pt.4:
"Uma autoestrada na Índia"
 

IMG_20180813_185149.jpg
 

Esta história foi
escrita
ao som de:

 

39 Anos 🎉 by Joel Araújo

Tempo de leitura: 2 minutos
MVIMG_20180425_163720.jpg
 

Quem celebra?

A comemoração não é para mim. Eu parei de envelhecer aos 25, vai fazer 3 anos em Outubro. Segundo, o meu grau de narcisismo não chegou ao ponto de escrever uma história sobre o meu próprio aniversário. Na verdade, há 39 anos atrás, faltavam ainda 11 para eu nascer.

Felizmente, a internet diz-me que aconteceu muita coisa em 1979:

 

No Mundo:

-Os Pink Floyd lançam um dos melhores álbuns da história, o The Wall.
-Curiosamente, o Mickael Jackson lança o quase homónimo Off the Wall
-Os ABBA lançam o Voulez-Vous, despoletando o segundo Baby boom. ❤️
-Pela primeira vez que há registo, neva no deserto do Sahara.
-O Papa João Paulo II é o primeiro a visitar um país comunista, a Polónia, sua terra natal.
-O Trivial Pursuit é lançado, e é inventada a desavença familiar.
-Estreia o Regresso do Super Homem.
-É lançado o Walkman, emergindo os primeiros hipsters da era moderna.
-Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro”, é eleita primeira ministra no Reino Unido.
-O McDonald’s lança o Happy Meal, e consigo cria o conceito de obesidade infantil.

 
 

Entretanto, em Portugal:

-Manuela Bravo leva “Sobe sobe, balão sobe” ao festival da Eurovisão, ficando atrás de uma canção Israelita quase tão má como a de 2018.
-Estreia o filme “Amor de perdição” (Não vi, foi a minha mãe que me contou).
-O Futebol Clube do Porto ganha o campeonato nacional por 1 golo (Costa)
frente ao Benfica no Estádio das Antas.
-Nasce o Correio da Manhã.
-Logo de seguida, é criado o SNS, Serviço Nacional de Saúde.
-Primeira emissão da Rádio Comercial, provavelmente apresentada em brasileiro.
*-Nasce Carlos Teixeira, ilustre cidadão e pautado fotógrafo português.

-A 8 de Agosto o meu Corolla KE20 é produzido na linha de montagem da Salvador Caetano em Ovar, por um senhor de bigode, ali depois do almoço, naquela hora da morrinha.

 
IMG_20180425_153255.jpg
IMG_20180425_153255-2.jpg
IMG_20180425_153200.jpg
 

Pano de fundo
Estas fotos foram tiradas no passado feriado do 25 de Abril, numa viagem pelo Gerês com os meus bons amigos Tiago Lima, Francisco Frutuoso e Miguel Freitas. Foi o primeiro verdadeiro passeio de lazer com amigos que o Corolla fez, e apesar da 2ª panela de escape não ter sobrevivido aos declives da serra, prova que uma viagem dá sempre melhores fotos quando vais de Clássico.

Aviso: 2010 chamou e exigiu uma página do Tu Precisas de um Clássico no Facebook.

#like4like

 

Esta história foi
escrita ao som de
:

 

A Classe 738 by Joel Araújo

Tempo de leitura: 3 minutos
29713545990_a4b7e60bf2_k.jpg
 

A proposta:

Não há como escapar à nostalgia de Agosto.
Foi precisamente por esta altura que, em 2016, abordei dois dos meus amigos para a vida, com uma proposta pouco ortodoxa de um plano de férias:

– Sérgio, João, estas férias vamos fazer a Estrada Nacional 2, de Clássico.

– É uma proposta arrojada. Dá-nos argumentos.

Contexto
Com certeza que já ouviste falar na route Route 66. Faz parte da cultura popular americana e, por associação, da cultura ocidental na sua generalidade.
A Route 66 é a materialização perfeita do romanticismo que criámos em torno do conceito de Road Trip: A estrada deserta, o horizonte à vista, o sol, a despreocupação, a liberdade.
Para todos os efeitos, a Route 66 é uma “estrada nacional” transcontinental que atravessa os Estados Unidos da América, ligando Chicago à California, num total de 3755 km.
É o 2º percurso de estrada mais longo do mundo, apenas superado pela Ruta 40 na Argentina, com uns impressionantes 5224 km.
Contudo, é no 3º lugar do pódio* que encontramos, sem qualquer conformismo à regra, a Estrada Nacional 2 em Portugal. Apelidada de “Estrada Real”, esta liga Chaves a Faro em 738 km. A espinha dorsal do país, ligando o território continental do extremo norte ao extremo sul, sempre pelo interior, por caminhos já percorridos há 2000 anos atrás por vias romanas.

*Até à data da redação original - 2016

 
29973536106_d11ae70513_k.jpg
29379928094_37f3cde330_k.jpg
 

As condições
Estou-vos a propor ir de Chaves a Faro e voltar, fazendo mais de 2000 quilómetros sob o calor extremo de Agosto, sem o conforto do ar condicionado ligado e vidros fechados; Sem o Spotify no smartphone conectado por Bluetooth a garantir aquela playlist previsível que nos safa da mercê das rádios locais; Estou-vos a propor viajar sem um habitáculo acondicionado e isolado do exterior, onde será impossível esquivar de todos os cheiros térreos agro provenientes da paisagem circundante. Vamos ter que percorrer centenas de quilómetros sem sistemas de infotainment para ver uma série enquanto não chegamos ao destino. Não vamos poder conduzir sem precisar de fazer paragens para abastecer em estações de serviço esquecidas pelo tempo, pois o carro é a gasolina. Esqueçam os bancos massajantes e arrefecidos, apaziguantes da fadiga. Vamos ter eventualmente que sair de rastos do carro e parar para comer algo numa aldeia pitoresca no meio de nenhures, onde o prato do dia é broa e vinho. Depois de partirmos, um olho estará sempre na estrada e outro no ponteiro da temperatura do motor. O carro também não vai poder ir sujo, porque, ao contrário do costume, ele não vai servir só e apenas para nos levar de A a Férias.

 
29973651416_a2a7229c81_k.jpg
29893697452_bc2802f32a_k.jpg
Esta é a génese da Classe 738, e mal posso esperar por voltarmos a fazer esta estrada, agora no Corolla.
29713558830_b9c925378a_k.jpg
29380996983_f4d51e7c1f_k.jpg
 

O rescaldo
Há um ano atrás, por esta altura, eu, o João e o Sérgio estariamos a meio da Estrada Nacional 2. Relembro com estima um momento distinto, provavelmente a sair do Castelo de Abrantes e atravessando o Tejo. Numa ainda longa viagem até Évora, rasgando a planície alentejana, durante a maior etapa de toda a aventura: A viagem arrastou-se pela noite. O sol já em fase descendente transformava todas as cores em contrastes de laranja e azul, um “Teal and Orange” que não se reproduz com edição de imagem. A temperatura era intensa, o rádio quase não apanhava emissão, o vento era quente e o andamento permitido pelas 4 velocidade do Starlet não era muito. O espaço dentro do carro era reduzido, de tão apetrechado com o material de viagem para 10 dias. Os vidros iam completamente abertos, mesmo com o chegar da noite, e o silêncio da planície neste fim de dia era apenas partilhado com o cricrilar de grilos, o som ronronante de um carburador, e a cumplicidade de 3 amigos em 738km de piadas, desabafos e histórias.

Esta é a génese da Classe 738, e mal posso esperar por voltarmos a fazer esta estrada, agora no Corolla.

Estas férias, vai de Clássico.
Boa viagem.

 
29380978813_a7a88d1321_k.jpg
 

Se ainda não conheces a história dos 3 rapazes que em Agosto de 2016 fizeram os 738km da EN2 num Toyota Starlet de ’88, podes encomendar a Topos & Clássicos #189 de janeiro de 2017 para um especial de duas páginas com uma foto exclusiva dos meus calções de praia.

 
29893700172_37967bbed6_k.jpg

64 by Joel Araújo

Tempo de leitura: Com tempo.
Esta fotografia foi tirada em Outubro de 2015, na Expo Clássicos de Guimarães com o tema “transportes públicos de passageiros”.
 

Outubro de 2015 - Expo Clássico de Guimarães
Nunca quis publicar esta fotografia.
Não sou supersticioso, mas ocasionalmente tenho um presságio, e quando revia as fotos desta coleção e vi o meu pai dentro deste autocarro clássico da STCP, o momento ficou-me impresso na memória.

 

Há três vidas atrás.
Em Outubro de 2015 a minha vida era muito diferente do que é hoje.
Por esta altura seria ainda um mero apreciador de clássicos (ainda o sou) sem qualquer compromisso ou ambições neste meio; O meu primeiro carro estava ainda a um mês de existir; O blog, os amigos dos clássicos, a T&C, esta segunda vida, eram ainda poeira cósmica aguardando o momento de se materializar.

Em Outubro de 2015 lembro, contudo, que a ideia de ter um clássico já existia. O meu pai opunha-se a ela, dizia que um carro antigo só dava dores de cabeça, mas sabia que tão teimoso como ele, só eu.
Enquanto me tentava demover da ideia, era capaz de ligar a uns quantos anúncios de clássicos à venda para regatear preços. Uma prática que se manteve até ao Corolla KE20 que possuo hoje.

Um automóvel é sempre dispendioso, seja ele qual for. E apesar de ser um desejo que alimentava há algum tempo, foi um luxo ao qual voluntariamente me privei, por duas razões: Porque preferia não ter carro do que ter um qualquer, mas sobretudo porque no fim de 2015, depois de quase 3 anos a dar a alma numa startup que co-fundei, as minhas poupanças não eram propriamente invejáveis.
Uma realidade que não será novidade para qualquer um que tenha feito parte do boom do empreendedorismo nacional que então corria a todo o vapor.

 

Há duas vidas atrás.
Foi no preciso dia em que tirei esta foto do meu pai em Guimarães, na mostra de transportes públicos de passageiros, que recebi a chamada que me levaria ao primeiro emprego pós-startup, e à necessidade iminente de possuir um meio de transporte mais eficiente que os disponibilizados pela trágica instituição aveirense MoveAveiro, cidade onde morava.
Um mês depois, já convertido, o meu pai iria comigo a Vila Nova de Gaia ver e fazer o registo de um Toyota Starlet EP70 XL vermelho de 1988.

 

Há uma vida atrás.
Se não tivesse um pai que acreditasse e investisse no meu sonho, mesmo não concordando com ele, hoje não estaria a escrever este texto, nem escreveria a primeira linha para o blog que viria a moldar a minha vida como nunca imaginei, o Tu Precisas de um Clássico, que passo a citar:

Um dos grandes motivadores para a criação deste espaço foi o meu pai (mas ele não sabe).
— 15 de Janeiro de 2016 - tuprecisasdeumclassico.com

Hoje.
Hoje, 6 de Agosto, o meu pai faria 64 anos de idade, e esta história é dedicada a ele.
Uma história que é contada ao contrário, onde é o filho que ensina o pai a gostar de clássicos, que o leva aos encontros e o convence que afinal ter um clássico não é só dores de cabeça.

Fazes-me falta.

 
 

À minha mãe, irmã, à minha sobrinha Leonor, família, e a todos os amigos que durante estes 2 meses fizeram com que cada dia fosse um pouco mais fácil de viver. 

Obrigado.

 
 

The Indian Job - Pt.2 "Branco mais branco, não há" by Joel Araújo

Tempo de leitura: 3 minutos
 

Episódios anteriores:
Pt1:
 “Normal speed suits every need”

Branco mais branco, não há

Lidar com os números

Existem 9 milhões de bicicletas em Pequim. É um facto. Ninguém o pode negar. É uma pena que nunca ninguém tenha escrito uma canção sobre os 10 milhões de veículos registados em Nova Delhi. Imaginem uma mistura enriquecida pela textura e cor do Punjabi, com o ritmo frenético e caótico do Punk-Hardcore e o exercício de paciência de 30 minutos em que no fim não se chega a lado nenhum, como em qualquer música de Post-Rock. Temo que não seja a receita ideal para um Grammy, ainda assim 10 milhões é um número impressionante, sejamos sinceros. Contudo, não é a quantidade que é importante aqui. “Olha, sabias que Nova Delhi tem tantos carros como Portugal tem habitantes?”. Daquelas informações tão relevantes como saber que na Suíça é proibido possuir apenas um porquinho da guiné. A verdade é que, em Nova Delhi, os engarrafamentos e trânsito fazem parte da cultura rodoviária, e não é só pelos números exagerados. Todos os veículos fazem parte de uma dança descoordenada, sem nunca se tocarem, sem nunca se enervar, sem nunca reclamar. Não existe pressão social para conduzir bem na Índia, e quando ninguém leva a mal, é porque deve estar tudo bem.

 
IMG_20180707_110854.jpg
 

A invasão nipónica
Para além de música, o trânsito de Nova Delhi relembra-me constantemente da lenda popular das amendoeiras. A princesa do norte aqui também tem saudades de neve, com a única diferença que nem um rei consegue espaço nesta cidade para plantar as árvores de flor branca. A solução para este problema necessitaria de um toque de improviso indiano: Pintar todos os carros de branco garante que a princesa nunca volte a sentir saudades de casa: Seja a andar de Táxi, Uber, carro privado, autocarro, carrinha de transporte de mercadorias, camião ou Tuk Tuk elétrico. Todos os veículos nesta cidade são brancos.

O povo da índia é vaidoso, e o seus carros não são excepção.

Todos, apenas com duas excepções: Os Tuk Tuk normais, que são verdes e amarelos, e carros alemães. Os carros alemães (não que veja muitos) são todos vermelhos, por alguma razão. Eu devia estar feliz, afinal 90% dos carros desta cidade são Japoneses, com alguns Tata e Hyundai à mistura. Ainda assim, há algo na sensação de ver constantemente Toyotas, Suzukis e Hondas com nomes estranhos de há 2 gerações atrás que não preenche a alma. Principalmente quando não há um carro nesta cidade que não tenha um pára-choques batido, uma porta empenada, um vidro rachado, uma jante riscada. Não que isto seja importante, visto que a única comodidade obrigatória nos carros indianos é ter o ar condicionado a funcionar. O resto pode esperar.

 
 

A vaidade das massas
Não me interpretem mal. O povo da índia é vaidoso, e o seus carros não são excepção. Não é raro ver carros decorados com fitas vermelhas (de presente), jantes especiais, barras de proteção, figuras religiosas e decorativas no tablier e decorações coloridas. E por falar em decorações coloridas, não vão acreditar no nível de detalhe e mestria presente nas pinturas dos camiões de transporte de carga. O último que vi tinha farolins em forma de sardinha, não estou a gozar. Desengane-se quem pensa que no meio deste parque automóvel variado, o Tuk Tuk é veículo de segunda. O último em que andei tinha faixas de leds coloridas no tejadilho que piscavam como uma discoteca, ou boate foleira, vá. Na “bagageira” o subwoofer deixaria envergonhados muitos condutores de Ibizas ou Civics em Portugal, além de que o condutor só parava o shuffle quando garantisse que era mesmo a música que nos queria mostrar.

Não tem sido aborrecido, não. Ainda assim, é quando baixo a guarda que aparece um BMW M4, um Rolls Royce Ghost ou até um Maybach 57 (ou 62?). Bravos e corajosos, estes felizes afortunados.

Próximos episódios:
Pt.3: "O trânsito em Nova Delhi"
Pt.4: "Uma autoestrada na Índia" (para terminar em beleza)

 
 

Esta história foi
escrita ao som de:

 

London Grammar
Truth is a Beautiful Thing
(2017)

The Indian Job - Pt.1 "Normal speed suits every need" by Joel Araújo

Tempo de leitura: 3 minutos

Imagem por: Gen Design Studio

Normal speed suits every need

O mote

Esta frase pode ser lida em várias placas espalhadas pelas principais vias de trânsito da cidade de Nova Delhi. Em Portugal teríamos simplesmente sinalética vermelha ou azul com velocidades máximas e mínimas obrigatórias. Em Portugal. Na Índia as coisas não funcionam assim. Na índia, uma regra não é mais que uma mera sugestão.

Definir “normal speed” fica ao critério de cada um. Da mesma forma que os horários de trabalho, o valor de um lenço de caxemira ou o número de pessoas que cabem num Tuk Tuk*, ficam ao critério de cada um.

*O recorde vai em 15.

 
 

Once in a lifetime
Algures em Março ou Abril, a Gen perguntou através de um inocente mail, quem estaria disponível a ir para a índia durante uns tempos, com dois objectivos muito específicos: Descobrir se o latão oxida, e trabalhar em conjunto com um cliente de longa data, que inclusivé já possibilitou viagens anteriores.

Sem sequer pensar, alistei-me na recruta, mantendo porém fracas expectativas de ser selecionado. Fast-forward até finais de Junho, e aqui estou eu, com outros 4 amigos. Um casado, outro semi-casado, outro com namorada e eu, um solteiro acabado de desembarcar em terras virgens. Todos diferentes, mas todos juntos numa verdadeira cruzada dos tempos modernos, munidos de computadores portáteis, protector solar, uma palete de Imodium e citronela, muita citronela.

 
 

Os primeiros dias
As nossas duas primeiras semanas cá foram assim: Perceber que tudo aqui funciona de forma orgânica, flexível e fortemente improvisada, fruto de anos a aperfeiçoar um sistema que por defeito é imperfeito. À chegada, logo à saída do aeroporto, todo aquele calor intenso, a mistura de cheiros, as apitadelas, a confusão (isto às 23h30) foram tão previsíveis que quase mereceram uma gargalhada. Estamos por nossa conta, e eu estou a adorar cada minuto.

Dois meses na Índia equivalem a pelo menos quatro meses em qualquer outra parte do mundo, portanto nesta mini-série de estórias, vou partilhar um pouco do que é a realidade automobilística neste novo mundo, dividindo-as em 4 episódios:

 

Próximos episódios:
Pt.1:
Normal speed suits every need.
Pt.2: Branco mais branco, não há.
Pt.3: O trânsito em Nova Delhi
Pt.4: Uma autoestrada na Índia (para terminar em beleza)

 

As expectativas
Neste país, a linha que separa um péssimo condutor de um excelente parece-me muito ténue, e é algo que ainda não aprendi a avaliar. Algo que, paralelamente ao comportamento químico do latão, irei descobrir até Setembro.

Podem ver mais fotos nas publicações regulares sobre a viagem nas stories do meu Instagram

 

Esta história foi
escrita ao som de:

 

Between the Buried and me
Automata II
(2018)

Spa Classic 2018 by Joel Araújo

Tempo de leitura: 1 minuto
 

Para além do Corolla KE20, encontrei uma segunda razão para empobrecer alegremente:
A ideia é, <uma vez por ano>, fazer todos os possíveis para conseguir visitar um evento importante do calendário internacional de competição de clássicos. De cada um deles trazer uma boa história, boas imagens, experiências, e claro, alguns bragging rights.

Esta ideia surgiu depois da visita ao Goodwood Revival em 2017, devidamente escrutinada nas quatro páginas das edições #199 e #200 (Novermbro / Dezembro '17) da Topos & Clássicos.
A viagem deste ano esteve quase para não acontecer, mas numa decisão de ultima hora, consegui marcar voo para o circuito mais bonito do mundo, Spa Francochamps, mesmo a tempo do Spa Classic 2018.

<Sempre que possível, dependendo de orçamentos e apoios.>

Deixo aqui um pequeno excerto de todas as imagens que poderão ver na galeria dedicada Spa Classic 2018 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Esta é apenas uma pequena amostra de imagens do Spa Classic. Podes ver a galeria completa no menu +CARS, ali no canto superior direito da página, ou então clicar aqui.

 

Intervalo para publicidade:

Se o teu evento de clássicos permite o uso de boinas, terei todo o prazer em fazer uma boa reportagem sobre ele. Vamos falar?

joelaraujocom@gmail.com

 
 

Como não subir a Falperra. by Joel Araújo

Tempo de leitura: 6 minutos

Fotografia: Cristiano Loureiro, Mariana Sá, Catarina Peixoto

IMG_1175.jpg
 

Uma vez por ano, os papéis invertem-se e é o homem que pede à esposa para ir com os amigos rezar ao Santuário do Sameiro em Braga. “Precisas da motosserra para rezar?” - pergunta a mulher, assumindo que o gerador a gasóleo e o frigorífico de cerveja servirão para um piquenique depois da missa. “Se a girar no ar enquanto acelero, dá sorte. Disseram-me uns amigos de Fafe!” - Responde o homem. Tal como em Ponte de Lima se celebra o encontro nacional da Ford Transit em Setembro, na Falperra, operadores de motosserra de todos os cantos do país juntam-se para mostrar as suas habilidades, passando um fim de semana rústico na montanha, apesar do tempo incerto, e da falta de sombra este ano.

 
DSC07659.jpg
 

A Rampa da Falperra, apesar dos seus péssimos acessos pedonais em torno da pista, apesar de todo o lixo que o público abandona na floresta, apesar dos seus paddocks claustrofóbicos, é uma prova obrigatória para qualquer fã de automobilismo no norte de Portugal. De todas as rampas a que já pude assistir, nunca vi uma com um público tão vibrante e apaixonado. Tal como um jogo da selecção nacional, é um evento que atrai até aqueles que não ligam à modalidade. O automobilismo precisa disto: Atrair as massas. E as massas não são os entendidos em desporto ou em automóveis. São todos aqueles curiosos que vibram com o barulho, com a velocidade e com todos os excessos que um carro de corrida representa. Se a isso juntarmos amigos, família e cerveja, o que pode correr mal?

 
DSC07652.jpg
DSC07665.jpg
O automobilismo precisa disto: Atrair as massas. E as massas não são os entendidos em desporto ou em automóveis.
DSC07580.jpg
 

Ao contrário de 2017, onde fui ver a rampa como um recém-chegado a Braga, este ano levei um plano ou, na verdade, três: Consegui arrastar para o monte o Cristiano, Chico, Miguel, a Mariana e a Catarina, todos amigos de trabalho na Gen. Munidos de uma arca com “aperitivos”, uma manta e acessórios, nos quais não se incluía um saca-rolhas, combinámos uma hora bem cedo no início da rampa. Este era o 1º plano. Vergonhosamente, eu fui o último a chegar, devido ao 2º e 3º planos. Passo a explicar: Todos os anos o CAM (Clube Automóvel do Minho) organiza uma subida da rampa em desfile, com vários clássicos inscritos pertencentes ao público em geral. Este ano, ouvi dizer, devido a restrições horárias impostas pela federação, o desfile seria muito mais contido, apenas aberto a 20 carros, com a obrigatoriedade de serem já sócios do CAM. Não consigo confirmar que isto seja verdade, mas parece-me ser uma razão lógica. Tentei fazer a minha inscrição, mas não sendo sócio, não seria possível. Como estamos em Portugal, o factor C provavelmente seria uma boa solução, até porque no desfile final estavam bem mais que 20 carros. Contudo, para o Joel, Cunha só se for uma francesinha. Propus então uma solução prática e vantajosa a todas as partes: Falei com o meu 3º patrão, o Hugo Reis da T&C, e sugeri ir fazer a história da Rampa, a que estão a ler neste momento, a troco de conseguir integrar o desfile, onde a perspectiva para a fotografia e para o próprio texto seriam uma mais valia para o artigo final. Ficou tudo combinado, e “só teria que integrar o desfile à hora marcada”. Seria tudo tão simples, não seria? Pois claro que não foi.

 
IMG_1196.jpg
O que se seguiu durante o resto do dia foi o jogo do gato e do rato, num constante desvio de pontos de controlo, e pedidos de desculpas aos elementos das forças de segurança.

Apesar de estar autorizado pelo CAM a levar o Corolla ao desfile, não me tinha sido atribuída nenhuma credencial nem o “dístico verde” de acesso ao recinto. Um pequeno retângulo de cartão pintado de verde, que durante este dia valia por uma barra de ouro, ao que percebi. O dispositivo de segurança montado em torno da rampa era de uma eficiência tão feroz que o meu carro, apesar de combinado com a organização, não arranja forma de entrar. O que se seguiu durante o resto do dia foi o jogo do gato e do rato, num constante desvio de pontos de controlo, e pedidos de desculpas aos elementos das forças de segurança. Tinha permissão para estar ali, mas como a burocracia não foi tratada da melhor forma, eu era basicamente um impostor no evento, apesar de ter todo o direito de estar ali. Não é uma boa sensação. Depois de me esquivar a 3 postos de controlo, consegui estacionar o carro mesmo junto ao início da rampa, no local onde partiria o desfile umas horas mais tarde. Finalmente juntei-me ao resto do grupo, já desesperado, um pouco antes da curva do Hotel, dando início à petiscada, e aproveitando o local propício a umas boas fotos. Em 2017 parei no mesmo sítio da subida, ainda assim, estava com sérias dificuldades em reconhecer o local: Os incêndios do último trimestre do ano passado devastaram completamente a zona da Falperra, estando ainda bem presentes as cicatrizes provocadas pelos fogos.

 
DSC07618.jpg
A partir deste momento, estava “ilegal” no desfile.

Perto do meio-dia, teria sido pedido aos participantes do desfile que se juntassem junto à partida, e foi isso que tentei fazer. Neste momento, a única coisa que separava o meu Corolla e o ponto de encontro era um último posto de controlo da polícia. Mais uma vez, sem surpresas, não me deixaram passar. Neste momento, os clássicos já estavam a alinhar, e a partida seria a qualquer momento. Contactei os elementos designados do CAM para me ajudarem, mas a única forma da polícia me deixar passar era ser indicado presencialmente por algum organizador. No meio da confusão, e já sobrecarregados pelos encargos da prova, a última coisa que eu queria era estar a chatear alguém da organização por causa de um mero acesso. Aproveitei um breve momento de rebuliço no posto de controlo e, sem ser visto e sem autorização, entrei com o carro para a zona oficial do desfile. A partir deste momento, estava “ilegal” no desfile. E se o agente da PSP tivesse reparado, estava no direito de me acusar de desobediência a uma ordem policial. Extremamente nervoso, apressei os meus amigos a que entrassem rapidamente no carro para nos disfarçarmos no meio dos carros estacionados para o desfile. Com sorte, tudo resultou, e em breve estaríamos a subir a rampa da Falperra atrás de um 2CV demoníaco e à frente (apenas momentaneamente) de um Ford Mustang enraivecido. Os 68cv do Toyota cedo se mostraram insuficientes para subir a rampa a um ritmo considerável transportando mais 3 pessoas no carro. No carro ou no barco, a julgar pelo rolamento em curva.

 
IMG_2042.jpg
 

No fim tudo acabou bem, e poder subir a rampa da Falperra vendo o público do ângulo da estrada é fantástico. As tendas, as barraquinhas improvisadas, os spots publicitários, as fitas de segurança, mas principalmente a quantidade de gente a assistir fazem-me ter a certeza que, apesar das suas falhas, a Falperra é um evento demasiado especial para se perder. Um dia para partilhar esta paixão com os amigos, ver e rever outros tantos, e desfrutar de um local que, apesar de fustigado por recentes infortúnios, continua a ser lindíssimo. Para o ano lá estaremos.

 
IMG_2027.jpg