3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 3) / by Joel Araújo

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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 3 - Domingo

Sunday, rainy Sunday.

Domingo, último dia em Goodwood, e com certeza o mais difícil. A cerveja da noite anterior não resultou em curar este início de gripe, e neste  Domingo, para além do frio e roupa molhada, tinha agora uma ressaca para aguentar. Foi um dia com uma moral oscilante. Por um lado, a minha condição física estava uma lástima devido aos 3 dias sob um clima extremo, que me apanhou totalmente de surpresa, tal foi a desgraça das previsões meteorológicas. Por outro, a consciência de estar naquele lugar tão mágico, e o rugir dos motores dentro de pista faziam de mim uma pessoa mais tolerante.

 
 

Uma despedida lenta

Eu, o Steve e o Ken tomamos o nosso último pequeno almoço em Goodwood (Bacon e salsichas, claro) e decidimos que, ao contrário dos dias anteriores, iriamos seguir caminhos diferentes e aproveitar para fazer algumas compras antes de regressar a casa. Na loja de Goodwood tudo custa uma quantia considerável de dinheiro, mas nunca vi uma marca ser explorada tão bem no que toca a merchandising com esta de Lord March. Ao fim da manhã aproveitei para visitar o paddock da Ecurie Ecosse, equipa escocesa lendária fundada por David Murray em 1951 e vencedores de LeMans em 1956 e 1957. Aproveitei também para ver uma última vez com mais tempo e atenção a exposição dedicada à TVR e ainda o Settrington Cup, composto apenas por modelos Austin em ponto pequeno, “conduzidos” a pedais por pequenos afortunados.

 
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A tarde prometia, e logo no início do meu turno dar-se-ia o tão esperado Royal Automobile Club TT, o pináculo das corridas de GTs de cockpit fechado, entre os quais um Bizzarrini 5300GT, dois Sunbeam Lister Tiger, um Lister-Jaguar coupé e o meu preferido (sou parcial) um TVR Griffith 400. A esta altura, tal como em grande parte do fim de semana, chuva era intensa, e era fantástico observar como mesmo nas retas, os concorrentes tinham dificuldade em segurar os cavalos, com as rodas motrizes a patinarem mesmo na relação mais alta. Outro momento a recordar foi o Barry Sheene Memorial Trophy, de motas clássicas de competição, conduzidas no limite sobre aquele pântano de asfalto.

 
 

A última corrida

A última corrida do Revival seria o Sussex Trophy, composto por carros que correram entre 1955 e 1960 no campeonato mundial de carros desportivos, entre eles vários Jaguar D-Type e o peculiar Maserati Tipo 61 “Birdcage”. É difícil para alguém como eu, nascido em 1990, conseguir reconhecer e acompanhar grande parte destes construtores, principalmente integrantes de uma cultura automóvel tão diferente da nossa em Portugal. Confesso que para escrever esta história tive que recorrer a várias cábulas e automobília que fui recolhendo durante a minha estadia em Goodwood.

 

O regresso

Estendida a última bandeira axadrezada, entre um misto de tristeza e alívio, era hora de regressar. A viagem de volta a Portugal foi penosa, aborrecida e não merece relato. Estava exausto, doente, sujo e molhado, mas com a alma repleta, e com uma vontade incontornável de voltar. Eu tenho que voltar. Quando em inícios de fevereiro decidi candidatar-me como voluntário para o evento, nunca esperaria sequer ser chamado, quando mais estar aqui sentado em frente ao teclado a escrever-vos esta história. Foi sem dúvida um dos pontos mais altos de 2017, e uma história para recordar. Posso dizer com certeza que Goodwood superou as minhas maiores expectativas.

 
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A derradeira conclusão

O Revival são os automóveis, as pessoas, o recinto, a viagem no tempo, mas acima de tudo é algo maior que a soma das suas partes. É um ambiente irreplicável em qualquer outra parte do mundo, e por isso é único. Apesar dos contratempos climáticos, para mim ser voluntário não foi difícil, mas se estás a ler isto e te está a passar pela cabeça fazer o mesmo, reflete bem nos teus motivos. A minha experiência como voluntário foi excelente, mas porque voluntariado não é algo novo para mim, e porque financeiramente não teria hipótese de ir de outra forma. Se tens essa possibilidade, vai a Goodwood como visitante. Comecem as poupanças.

 

Quero fazer um agradecimento especial ao Luís da Boys Ran Fast, por todo o apoio que me deu, cedendo todo o dresscode sem pedir nada em troca. Existe um sítio para encomendar indumentária automóvel vintage, e esse sítio é a www.boysranfast.com. Ao Ken, ao Steve por terem sido os meus protetores durante toda a minha estadia, e por terem salvo o campista desprevenido de uns dias que teriam sido bem piores. À Laurraine e a toda a equipa de voluntários com que partilhei as minhas tarefas na March Grandstand. À Elle e à Laura, as giríssimas coordenadoras dos mais de 200 voluntários do evento. A todos os meus amigos e familiares que não compreendem como não consigo poupar dinheiro. Para todos eles, já estou a pensar na próxima aventura, e ela até já aconteceu.

 
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Give me Goodwood on a summer’s day and you can forget the rest of the world
— Roy Salvadori
 
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Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1: Sexta-Feira
Dia 2: Sábado
Dia 3: Domingo

 

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