Estoril Classics Week - O triatlo dos automóveis. / by Joel Araújo

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Topos & Clássicos #210 (Out. ‘18)

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Estoril Classics Week

 

A causa faz o atleta

A forma ligeiramente arredondada da minha zona abdominal, resultante do meu excessivo interesse pela gastronomia franco-minhota, nunca me deixará ser um atleta, na designação tradicional. Contudo, nem só da condição física nasce um desportista e, na minha instância, a causa faz o atleta. De Braga a Lisboa são quatro horas de distância e, distorcendo a referência ao rock português, ao invés de ir ter com uma miúda, fui participar numa prova de triatlo. Uma que me faria percorrer a baixa de Cascais, a serra de Sintra e uns antigos baldios onde por norma faz muito vento, lá para os lados do Estoril. Estou a falar do Estoril Classics Week, provavelmente a melhor ideia para um evento, desde que inventaram o Bananeiro no Minho.

 
 
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Concours d’elegance

Já em Lisboa, ao seguir pelo comboio da linha de Cascais, num dia de um calor atípico de Outubro, entre calções de banho, toalhas de praia e havaianas encontrava-se um sujeito de boina, calça de vinco e blazer azul marinho, a caminho, não da praia, mas de um local bem mais adequado à objectificação obsoleta dos conceitos de riqueza e vaidade: um casino. A primeira paragem deste fim de semana foi o Concurso de Elegância organizado pelo ACP, nos Jardins do Casino do Estoril. Um cenário perfeitamente adequado a receber automóveis como o Citroen DS 21 Palm Beach, os Ferrari 166 MM e 500 Mondial, o Maserati 3500GT, os De Tomaso Pantera, o Alfa Romeo Spider 2000,o  Aston Martin DB2, entre outros, incluindo aquele que foi o meu preferido: um AC Aceca de 1956, rara e lindíssima peça pertencente à colecção de José Manuel Albuquerque.

 
O interesse pelo automóvel clássico é mais forte do que nunca, independentemente de faixa etária, da origem ou de condições económicas.
 

O Troféu "Best of Show" ficaria para o Ferrari 500 Mondial de André Villas-Boas, premiando o significado histórico deste exemplar mas, sobretudo, a originalidade e a preservação deste belíssimo automóvel de competição, que ostenta orgulhosamente as marcas do tempo.
Prova de que o universo dos clássicos em Portugal é vasto, mas concentrado, é a quantidade de amigos que encontrei no curto espaço de tempo que estive nos jardins do Casino, incluindo o António Miguel Paquete, amigo destas andanças e com quem aprendi imenso durante estes dias. A ele, ao pai, também António e restantes irmãos Henrique e Gonçalo, fico a dever toda a hospitalidade que recebi durante este fim de semana. As festividades no Casino prolongaram-se durante o resto do fim de semana e a quantidade de visitantes não deixa dúvidas que o interesse pelo automóvel clássico é mais forte do que nunca, independentemente de faixa etária, da origem ou de condições económicas.

 
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Elegância no Estoril, emoção em Sintra

Depois de uma tarde a passear pelos jardins com o Casino como pano de fundo, o final do dia aproxima-se, e com ele a mítica especial do Rally de Portugal Histórico na serra de Sintra, palco dos lendários ralis de Portugal na década de 80, carinhosamente lembrado por quem os presenciou, e marcado pelo incidente que a 5 de Março de 1986 acabou com o Grupo B. Trinta anos se passaram mas, não sei se por falta de meios, ou pelo simples desejo de manter o rigor histórico, as medidas de segurança à volta da estrada eram semelhantes às daquele tempo, com redes laranja a delimitar a zona de espectadores, sendo imediatamente sobrepostas pela vontade de estar mais perto das máquinas, com a ajuda de algumas cervejas a mais. Estava previsto que Miki Biasion abrisse a especial de Sintra aos comandos do Lancia Delta Integrale, modelo com que venceu por três anos consecutivos o Rally de Portugal, em 1988, 1989 e 1990. Ao que parece, o Integrale não colaborou. Contudo, os inúmeros fãs que esperavam ao frio por esta passagem, não deram o tempo por mal gasto, pois à estrela que se seguia, acrescentar-se-ia um cilindro e um som tão inconfundível como o da trovoada: falo do Audi Quattro que foi também conduzido por outro convidado especial do Estoril Classics Week, Stig Blomqvist.

A noite acabou pelas três da manhã, e ao fazer o check-in, lembro-me com alguma vergonha de ter ligado para a recepção do hotel a dizer chegaria “lá pelas 23h30 ou meia noite". Que ingénuo…

 
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Prato cheio no Autódromo do Estoril

Para me dar boleia até ao autódromo, recrutei o amigo Ricardo Santos, colega de profissão e o melhor ilustrador automóvel em Portugal (visitem o site dele e reconhecerão instantaneamente a quem me refiro: www.ricardo-car-artwork.com). O Ricardo trouxe o seu Peugeot 205 CTI e foi com a capota aberta, sob um sol fantástico, que chegámos ao primeiro de dois dias no Autódromo Fernanda Pires da Silva.

 
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O primeiro momento do dia foi a recriação da gincana do Rally de Portugal Histórico, que deixou um pouco a desejar no departamento da diversão, animado quase exclusivamente por Dominique Holvoet num Toyota Celica GT, a curvar em três ou duas rodas, e pelo Ford Escort RS2000 com pintura da Rothmans de Jean-Luc George que, já na noite anterior, tinha sido o preferido do público em Sintra. O circuito do Estoril teve uma vida difícil, mas não deixa de ter um traçado encantador e, no misto de novas e velhas infraestruturas, é possível delinear com alguma precisão alguns dos eventos históricos que mais marcaram a pista. Esta cronologia de marcos do circuito pode ser lida e vista com mais detalhe no delicioso livro “30 anos Circuito do Estoril”, que comprei por impulso antes do regresso ao norte.

 
Sob o pôr do sol do Estoril, ver a que foi, de longe, a prova mais emocionante do fim de semana: o Iberian Historic Endurance.
 

Entre os concorrentes e máquinas, somavam-se as provas do campeonato de F1 Classic, onde, sem surpresas, Martin Stretton dominou os seus adversários ao volante de um Tyrrell 012, com o lindíssimo verde da Benetton. Seguiam-se as provas de CSS grupo 1, com várias categorias, nas quais corria o Datsun 1200 ex-Team Dalva azul e laranja do amigo e conterrâneo Mané Loures, facilmente o carro mais bonito da grelha. Por momentos, as quatro rodas seriam trocadas por duas, no World GP Legends Riders, um momento que apesar de valer pela diversidade, falhou em trazer quantidade à grelha e, tal como nos Fórmulas, pecou pelo reduzido número de participantes, que por agravante tinham andamentos distintos, transformando as provas mais num desfile de beleza do que numa competição. Ainda assim, valeu a pena assistir, por ser uma oportunidade rara de ver em acção certas máquinas e pilotos lendários.

 
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Foi já no fim do dia e na companhia de mais um grupo de amigos - entre eles José Mota Freitas, Fernando Pinto da Fonseca, José Manuel Matos e Rui Queirós - que me sentei para um merecido descanso na bancada da Curva 1, para, sob o pôr do sol do Estoril, ver a que foi, de longe, a prova mais emocionante do fim de semana: o Iberian Historic Endurance. Uma prova de resistência de 50 minutos, considerada a melhor prova sul europeia do género, contando com a participação de viaturas de GT e Protótipos tão emblemáticos como os Ford GT40, Jaguar E-Type, Porsche 911 RS, Lotus Elan entre tantos outros.

No norte diz-se que “quem não é para comer, não é para trabalhar” e, portanto, este cansativo dia terminaria com um belo jantar junto ao Casino do Estoril, onde pontualmente se fechou os olhos às economias para uma refeição digna de um bom dia de corridas.

 
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Participar na festa

O último dia, no Estoril, foi especial. O fim de semana, na sua generalidade, havia sido dedicado a novas experiências, locais e pessoas, mas sempre de forma não combinada. E foi o que aconteceu por duas vezes no Domingo, a convite do amigo António Miguel Paquete. A primeira, a oportunidade de conduzir o MG Midget preto nas sinuosas estradas da serra de Sintra, a caminho da Lagoa Azul. O António levaria o Midget até lá e, no regresso ao circuito, seria eu aos comandos. Subitamente, dei por mim a tentar ajustar o totalmente ineficaz cinto de segurança, enquanto sentia a traseira do carro a fugir, enquanto o escape lateral me gritava aos ouvidos que a velocidade que levávamos seria bem para lá da recomendada naqueles caminhos. “O António está a jogar em casa, não tenho que me preocupar”, disse eu para os meus botões. Ao que ele remata, quase por telepatia “Não conheço bem estes caminhos, portanto estou a ir com cuidado”. E foi neste momento que senti medo. Para quem está habituado aos comandos de um Toyota, estava curioso em experimentar a sensação de conduzir um modesto, mas puro, desportivo britânico. Fiquei genuinamente surpreendido com o quão despachado era o pequeno Midget.

 
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Esta não seria a única surpresa do dia: Para terminar este Estoril Classic Festival em grande, mais uma vez a convite do António, tive a oportunidade de fotografar três voltas ao circuito do Estoril, sentado no banco traseiro de um raro Volvo 122S, de duas portas. Um carro em estado original e absolutamente irrepreensível, conduzido com algum cuidado pelo seu irmão, mais novo e recém encartado, Henrique Paquete, sob as indicações precisas do pai, como se a aprendizagem da trajectória perfeita do circuito fosse tão importante como aprender a tabuada na escola. É nestes momentos que me apercebo do que é viver realmente as corridas, e da forma como os automóveis podem estar tão enraizados na cultura de uma família, da mesma forma que outras vivem o futebol, a gastronomia ou outro qualquer interesse.

 
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Estoril Classics Week, provavelmente a melhor ideia para um evento, desde que inventaram o Bananeiro no Minho.
 

Do Estoril Classics Week trouxe as memórias de uma das reportagens que mais gostei de fazer. Um fim de semana em cheio, onde sinto que nada faltou. Os novos e antigos amigos, os diferentes locais, os automóveis, a fotografia e uma boa história para contar.
É afinal este o encanto deste tipo de eventos e espero que as emoções transmitidas, ainda mais do que os números, sirvam para convencer os leitores a viver a próxima edição.

 
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