3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 0) / by Joel Araújo

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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 0 - Quinta-Feira

Este texto começa pela sua conclusão: Se te consideras um fã de automóveis clássicos, vais ter que ir a Goodwood. Se abdicarias facimente das torradas e galão por um prato de salsichas e bacon, vais ter que ir a Goodwood. Se a tua pele é impermeável e não tens medo do frio, vais ter que ir a Goodwood. Mais importante que tudo, se o formato da tua cabeça é compatível com uma boina, vais ter que ir a Goodwood.

 
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O Prólogo

Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017, Porto, Aeroporto Sá Carneiro, temperatura agradável e sol convidativo a um passeio. Eu, limpo e seco, de boa saúde, bem alimentado e confortável. Que bem que começou este dia. Mas nem tudo correria bem, a começar pelos dois ataques epiléticos a bordo do voo que me levou até ao Reino Unido. Quando finalmente o avião desceu das nuvens, olhei para o céu e pensei para mim mesmo: "Troquei 30º de sol em Portugal por isto?" Ao que consta, voltaria a repetir esta frase várias vezes durante o fim de semana, num tom cada vez mais degradado e furioso.

 
 

O aeroporto eleito para a aterragem foi Gatwick. À data da viagem, não era a opção mais barata para aterrar na ilha, mas foi uma aposta mais segura. Dali a Chichester (leia-se “tshi-tshes-ter”) era apenas uma hora-e-meia de comboio direto, o que é bom quando o viajante tem tendência para se perder com facilidade. Ainda a 3km da herdade de Lord March, já era possível sentir uma azáfama invulgar para aquela pequena vila, mais tarde explicada por um dos taxistas: “Goodwood is in town, and everybody here benefits from it”, disse-me ele. Não duvidei. Afinal de contas, ano após ano, todos os quartos de hotel nas redondezas esgotam meses antes do evento.

 
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Com os pés em Goodwood

Ao fim de quatro parágrafos de texto, enfim que meto os pés no (por enquanto) relvado do recinto de Goodwood. Sensação estranha, confesso, principalmente depois de incontáveis horas a ver os vídeos e a acompanhar os diretos das provas. A mesma sensação de ver uma temporada inteira de Shark Tank Portugal na televisão, e ao estar em frente ao júri, aceitar que a nossa percepção do espaço varia consoante a experiência que vivemos num dado lugar. No caso de Goodwood, foi boa. Não posso dizer o mesmo dos estúdios da SIC.

Is that a satellite dish? Do you plan on watching Goodwood from TV?

Perguntou-me um senhor muito bem-disposto quando me dirigi ao check-in de voluntários, reparando na tenda gigante em forma de antena de satélite que trazia às costas. O sentido de humor britânico é reconhecido mundialmente, e este foi só um de muitos exemplos durante o fim de semana. Ao contrário da minha recente viagem à Índia, no Reino Unido faço-me passar facilmente por um local, como se o meu nome verdadeiro fosse James e tivesse acabado de chegar de Wales. Quando contava a alguém que na mesma manhã estivera a 2000 quilómetros de distância a apanhar sol e calor, uma de duas reações era garantida: A de entusiasmo, por verem alguém de “tão longe” a voluntariar-se. A segunda, uma expressão de profunda tristeza, como quem antecipa um “Pobre coitado, onde te foste meter”.

 
 

Os meus novos amigos

No acampamento, fiz amizade imediata com os dois senhores da tenda ao lado: O Steve e o Ken, ambos de Liverpool, que tentarei visitar na minha próxima viagem ao Reino Unido. Agora que penso, “fiz amizade” é um pleno eufemismo, face à ajuda que me deram durante estes atribulados dias. Tendas montadas, eram 5h da tarde, e ainda havia tempo para dar uma volta pelo recinto antes que este fosse invadido pelas massas de aristocratas, mecânicos e restante público. Uma das principais vantagens como voluntário é o acesso total a todas as áreas do evento, com exceção do Rolex Drivers Club. Diz a lenda que “Não entrarás no Rolex Drivers Club”. Em Goodwood os automóveis são apenas uma parte da magia. O recinto é lindíssimo, onde nenhum pormenor é deixado ao acaso: desde a relva sempre impecável e flores cuidadas, à decoração “period correct” dos stands de comida, dos transportes de visitantes, dos showrooms, dos paddocks, das publicidades nas bancadas… Tudo é feito de forma a garantir o máximo nível de imersão à imagem das décadas douradas do desporto automóvel. Por outro lado, apesar da notável obsessão com o detalhe, o evento nunca perde aquele toque familiar e flexível com o seu staff.

 
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A zona das boxes estava organizada em corredores divididos por marcas, classes, equipas e período histórico. Leva tempo a digerir uma fileira de AC / Shelby Cobra, ou de Ferrari, incluindo o 250 LM que teve um final menos feliz em pista no Sábado. Não querendo descurar todos os Maserati, Lotus, Jaguar, Brabham, Lister, Lola ali estacionados. Sem me aperceber, acordei para um exame de história da competição automóvel, abrangendo décadas de lendas e feitos, e a má notícia é que não estudei. Antes do sol se pôr em Goodwood, tive oportunidade de ver os últimos preparativos na “Over the road”, uma feira popular de outros tempos, repleta de bares e bailes, onde convidados, pilotos e público se reuniam para beber uma cerveja quando acaba a ação nas pistas. Nunca imaginei terminar este dia de recepção numa tenda a beber Gin com dois recém conhecidos, o Steve e o Ken. Algo que cedo se mostrou benéfico, dando uma ajuda nesta primeira noite de frio extremo. Cedo me apercebi que todas as previsões que vi em Portugal tinham saído ao lado, e que não ia ser um fim de semana fácil para um friorentos.

 
 

Advertência:

Nota: se querem ver fotos incríveis do evento, não serei eu a mostrar-vos. Da minha parte só irão ver fotos ranhosas tiradas de um Motorola G2, e o meu arrependimento é nulo. Levei uma câmera emprestada (sem o dono saber), mas nem a tirei da mochila. Primeiro, porque metal e plástico não boiam. Segundo, porque as lentes também não. Felizmente o mundo é um lugar cheio de gente talentosa, como a Amy Shore, Dave Adams, Tom Shaxson, Antoine Dellenbach entre tantos outros ídolos que marcaram presença fora das linhas brancas e registaram o evento como um dia eu sonho fazer.

 

Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1:
 Sexta-Feira
Dia 2: Sábado
Dia 3: Domingo

 
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