3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 1) / by Joel Araújo

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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 1 - Sexta-Feira

Eram 06:00 e eu não conseguia continuar na tenda. Não só pelo entusiasmo do meu primeiro dia a sério no Revival, mas pelo frio insuportável e níveis de humidade. Em Goodwood os galos também assinalam a alvorada, mas ao contrário das aves lusitanas, estes são de metal e têm um motor Rolls Royce Merlin de 12 cilindros. O som de um Spitfire a sobrevoar a tenda pela manhã é capaz de acordar os mortos, e eu para lá caminhava. Todos os dias a rotina era semelhante, a começar pelos dois pequenos-almoços: O primeiro, de base continental, à base de fruta, iogurte e cereais, não fazia mais que preparar o estômago para o verdadeiro pequeno-almoço: Salsicha e bacon acompanhados de um café quente. Em Goodwood os voluntários têm acesso à Staff Welfare Canteen, que serve refeições a “baixo custo” e refills ilimitados de café quente. Logo no primeiro dia, tive um daqueles momentos que, aos 26 anos, começo a ter vergonha de ter: Deixei a salsicha do prato rolar para o chão sem querer. Nada de mal. Acontece. No entanto:

Damn! My sausage fell off!

- Porque disso isto em voz alta, nunca vou entender.

 
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You’re too young to say that, sir!

- Responde-me prontamente a rapariga do bar. Com esta já não me safo.

 

Fora o pequeno almoço, as restantes manhãs eram passadas a visitar o máximo possível de coisas antes do início dos turnos de voluntário (sim, não nos esqueçamos que fui para Goodwood “trabalhar”). Num dos únicos locais secos de toda a herdade, o Earls Court Motorshow (réplica em tamanho pequeno da extinta exposição de Londres e Birmingham) pude finalmente encontrar-me com um dos meus ídolos de juventude: O regresso da TVR. Confesso que um dos motivos que me levou a Goodwood foi precisamente coincidir com o relançamento da “TreVoR”, a marca mais bizarra e fora da caixa de toda a história das marcas de carros construídos em barracões. Apesar do novo Griffith não me ter despertado o libido como desejaria, foi muito especial estar ao lado de modelos como o Tuscan, Cerbera ou o TVR S que de outra forma seriam impossíveis de ver ao vivo em Portugal.

 
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Recuar no tempo

A meio da manhã, as multidões já invadem o recinto, encarando personagens tão distintas como militares, mecânicos, lordes senhoriais ou militantes do exército da malha de lã da Escócia. Entre eles Ed China, com quem tive oportunidade de tirar uma foto, apesar do seu aparente aborrecimento perante o meu pedido. Do alto dos meus 183 centímetros de altura senti-me um anão ao lado deste senhor. Por esta hora, a roupa que vestia era mais da chuva do que minha. Sovina, só ma devolveu na Segunda-Feira seguinte.

 
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O primeiro turno

As 13h30 aproximavam-se, e com elas o meu primeiro turno. Não sei se por acaso ou simplesmente por pena, o meu posto como voluntário foi o mais fácil de todo o Staff. Imaginem esta rotina: Eestar mesmo em frente à March Grandstand, a bancada mais exclusiva e tranquila do evento, numa plataforma elevada mesmo em frente da grelha de partida, com vista privilegiada para a zona do paddock. Neste lugar, reconhecer visualmente quem tem ou não tem uma cadeira de rodas para poder subir à minha plataforma. Para além de manter os impostores fora deste espaço, teria que manter os ânimos calmos lá em cima, não fossem os meus convidados entusiasmarem-se com as corridas e começarem eles mesmos um batalha de carrinhos de choque dentro daqueles 20 metros quadrados. Foi basicamente isto que fiz durante todos os meus turnos: Segurança de um espaço de diversão diurno para pessoas com mobilidade reduzida. Tipo um lar, mas em que os hóspedes são viciados em gasolina e velocidade.

 
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A corrida mais bonita do mundo

Sexta-Feira foi maioritariamente um dia de treinos e qualificativas no circuito. Mas sem antes terminar com algo muito especial para oferecer: O Troféu Kinrara, “The Most beautiful race in the World”: Uma corrida de 1h com mudança de piloto, começando ao final do dia, e permitindo observar os últimos raios de luz incidir sobre as formas voluptuosas de carros tão icónicos como Chevrolet Corvette C1, AC Cobra, uma armada de Aston Martin DB4GT, Ferrari 250 SWB e Jaguar E-Type. Seria nesta corrida que teria o primeiro vislumbre do ritmo a que se corre em Goodwood. Imaginem a acção e cargas de ombro do troféu FEUP em Portugal, mas em vez de correr em Puntos, os carros estavam avaliados em milhões de euros. Toques, batidas, muita chapa amassada ou até acidentes aparatosos, como pude assistir com os meus próprios olhos quando o AC Cobra de Martin Hunt embateu em força contra os pneus da primeira curva ao falhar uma ultrapassagem arriscada. Acabando a corrida, acabaria também este primeiro dia nas pistas. Era hora de dar um salto “ao lado de lá” (Over the road) e ambientar-me ao espírito noturno do Revival. Ainda deu tempo para beber umas Pints da inocentemente rotulada  “Goodwood beer” e apreciar os vários concertos de rockabilly e dançar num verdadeiro baile dos anos 60. Eram 22h, e se em Portugal haveriam pessoas a sair dos seus trabalhos a essa hora, no Reino Unido essa é a hora oficial de ir dormir. Foi pena, mas a noite acabava mesmo a essa hora.

 

Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1: Sexta-Feira
DIa 2: Sábado
DIa 3: Domingo

 
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