3 dias em 1966 - Um voluntário no The Goodwood Revival (Dia 2) / by Joel Araújo

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Precisamente há um ano atrás, troquei os trinta graus de um Portugal soalheiro pelo frio e chuva das Terras de sua majestade. O motivo teria que ser muito bom: Ser voluntário no The Goodwood Revival, o maior festival de carros clássicos e históricos do mundo.

 
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Dia 2 - Sábado

Sábado trouxe alguma esperança à minha condição de cidadão mediterrânico em terras de sua tempestade. Saí da tenda e para minha surpresa, estava sol. No entanto, por esta altura, as verdes pastagens do acampamento e recinto deram lugar a um lamaçal interminável. Para sair da tenda só de botas. Para tomar banho só de botas. Mais uns dias em Goodwood e até dormir necessitaria de botas. Todos os veículos ou autocaravanas do “Campsite E” estavam de alguma forma marcados pela fúria da lama. Estou a falar do Triumph Stagg da tenda do vizinho, ou do Alfa Giulia GT mais lá ao fundo. Os britânicos não deixam que o tempo lhes estrague os planos. Dá-me a impressão que o português médio só tira o clássico da garagem ao Domingo quando o termómetro aponta os 24,3º, com humidade relativa perfeita, sem nuvens no céu e sem poeira no ar. Já o britânico é bem mais prático: Levar um Austin Healey 3000 para um parque de estacionamento onde até um Land Rover se veria aflito? Não há problema. Ver um Lotus Elan ou um MGA coberto de lama? Não há problema. Talvez agora compreenda porque em Portugal se vêem tão poucos clássicos na estrada, mesmo com o nosso clima que, digam o que disserem, é perfeito.

 
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O céu, a terra e o paraíso

Entrando no recinto para o 2º dia de Revival, eram 9h da manhã e por esta hora a pista já teria sido abençoada, num ritual que obriga todos os veículos a desligarem os seus motores. A manhã de sábado foi passada nas duas extremidades do recinto: Numa ponta, a grandiosa exposição aeronáutica Freddie March Spirit of Aviation, expondo vários aviões comerciais e de combate de meados do sec. XX, e no extremo oposto, literalmente “do lado de lá” em “Over the road”. Na feira popular havia, para além da comida e bares, vários stands a vender automobilia, arte motorizada, placas com pin-ups ou simplesmente marcas a promoverem as suas oficinas de restauro. Para além desta zona comercial onde encontrei o Ginetta G4 dos meus sonhos, foi à entrada do recinto que descobri que o chão do paraíso é revestido, não de nuvens de algodão ou de seda, mas sim de lama. Estou a falar do parque aberto dos clássicos. As regras estipulam que apenas os carros até 1974 podem entrar no Revival, uma lei um pouco mais relaxada que o limite de 1966 imposto dentro de pista. Não vos consigo explicar a proporção, diversidade e qualidade daquele parque de clássicos, já por isso tirei algumas fotos, para no futuro ter a certeza de que tudo aquilo não foi um sonho.

 
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A última noite em Goodwood

Depois de mais um turno de voluntário com a minha equipa de impermeáveis e sempre simpáticos Mark, Matthew, Richard, Stephen, Warren e Wendy, sob a supervisão da atenciosa Lorraine (que pediu explicitamente para a mencionar neste texto), a noite caia, e estava na hora de voltar ao lado de lá, para uma noite potentíssima, graças à força e trabalhar de 6 cilindros de 3 litros (de cerveja). Afinal de contas, precisava de afogar as mágoas depois de ter visto o Ferrari 250 LM de Andy Newall, um carro avaliado em dezenas de milhões de euros, a espatifar-se com força contra as barreiras. Isto é Goodwood, e é para isto que estes carros foram feitos.

 

Restantes dias em Goodwood:
Dia 0: Quinta-Feira
Dia 1: Sexta-Feira
Dia 2: Sábado
Dia 3: Domingo

 
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