Encontros

Drive it Day 2018 by Joel Araújo

Tempo de leitura: 5 minutos
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“Ronha” Substantivo feminino –

Ato de ignorar o despertador, falta de vontade para trabalhar, agir, ou sair da cama a um Domingo de manhã. Ronha também representa o combustível principal de uma relação amorosa. Explica muita coisa: Para o proprietário de um clássico, Domingo significa acordar às 7h30 para meter o carro a trabalhar e estar às 9h num encontro de carros antigos. Esta rotina intensifica-se entre Abril e Setembro, quando todos os fins-de-semana, tal como as feiras agrícolas, há um encontro em todas as freguesias do país, acompanhado do respetivo programa televisivo.

Em 2012 o governo de Pedro Passos Coelho, atento ao panorama dos clássicos em Portugal, tentou resolver este problema com o plano de união de freguesias, mas o esforço não foi suficiente. Dividir para reinar, e como tal, não é incomum ver encontros com 2 carros, sendo que um deles é um utilitário diesel de 1993, porque “se tem 25 anos, é clássico!”. Contudo, no passado dia 22 de Abril o encontro foi bem diferente: Num gesto inteligente, vários clubes em parceria logística com a Câmara Municipal de Braga, e com a divulgação a cargo da Topos & Clássicos, uniram esforços e ao invés de cada um organizar o seu meeting, fundiram-nos num só, com resultados excepcionais.

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Não eram 2, mas sim 200 carros que se juntaram no largo do Pópulo em Braga, para as celebrações mundiais do “Drive it Day”, uma tradição que surgiu em Inglaterra, e que tem como lema principal usar o clássico para as tarefas normais, durante este dia. Seja para ir às compras, ou dar umas voltinhas ao circuito Vasco Sameiro. Neste Domingo da minha vida, não acordei às 7h30, mas sim às 5h, pois ainda estava a uns 200km de distância de Braga, e depois de uma noite de copos, tinha um comboio para apanhar. Cheguei a casa, e tão habitual como o croissant de chocolate às terças-feiras, o Corolla pegou de estalo.

(...) conseguimos ainda ter um vislumbre bizarro de uma carrinha funerária a chegar à igreja do Pópulo, ao som de mais de 200 máquinas históricas ao relanti.

Ainda a caminho do campo da vinha, já me encontrava rodeado de vários clássicos que apitavam e se saudavam num frenesim de cavalos irrequietos, típico de um acordar ao fim de longos meses de hibernação. Pelas 10h da manhã, já o parque de clássicos começava a ganhar forma, com uma imensa multidão de pedestres curiosa sobre o evento. O Clube Automóvel Antigo e Clássico de Braga e demais clubes organizadores deste encontro fizeram um jogo fenomenal de tetris para conseguir encaixar tanto carro naquele espaço reduzido. Como seria de esperar num encontro sem marca ou modelo específico, apareceu um pouco de tudo, para o bem e para o mal.

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Às vezes compreendo como alguns encontros ganham o rótulo de “elitistas” por limitarem a entrada a certas viaturas modificadas. É que a falta de noção de alguns participantes obrigam os clubes a impor estas regras, sob o risco de arruinarem totalmente o parque automóvel com certas aves raras, ou, mais uma vez, utilitários de 1993 a diesel. E o que não faltou neste Drive it Day foram jovens de meia idade que acreditam que um carro alterado ainda engata miúdas em 2018. No entanto, e porque no fim do dia o que interessa é gostar de carros, seja de que forma for, todos são bem vindos à festa.

Eu já decidi, o meu funeral vai ser assim, ao som do The Great Gig in the Sky, com as carpideiras vestidas de vermelho.

Ainda antes da caravana partir para o circuito Vasco Sameiro, eu, o David Silva e o Hugo Reis (colaborador e diretor da Topos & Clássicos, respetivamente) conseguimos ainda ter um vislumbre bizarro de uma carrinha funerária a chegar à igreja do Pópulo, ao som de mais de 200 máquinas históricas ao relanti. Eu já decidi, o meu funeral vai ser assim, ao som do The Great Gig in the Sky, com as carpideiras vestidas de vermelho.

Tenho outro sonho: De cada vez que participo num encontro, imagino sempre uma caravana de clássicos organizada e equidistante em fila, sem quebras e sem percalços até ao destino. A realidade é sempre bem diferente, e o Drive it Day não foi excepção: Ao sair do encontro a caminho do Vasco Sameiro, cada um estava por si, e o mapa minúsculo cedido pela organização não ajudava, bem pelo contrário! Eu “sou de Braga” e perdi-me ao tentar guiar-me pelo papel, apesar de saber perfeitamente o caminho que deveria seguir.

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Ao chegar ao circuito, os participantes tiveram uma última oportunidade de estacionar e exibir as máquinas no parque exterior do circuito, antes de serem lançados à pista. A atenção chamou-me para um Corolla KE25 cinza como o meu mas com o tejadilho em vinil, e com isto conhecer o seu proprietário e a história do carro. Adorava lembrar-me do nome do senhor, mas eu sou péssimo com nomes, além de que o nome não era propriamente um João ou um Silva.

Por esta altura estava curioso sobre o desfecho desta próxima etapa: No passado Setembro, durante o Racing Weekend, fora dito aos participantes do desfile de clássicos que o ritmo das voltas à pista seria em passeio, sem ultrapassagens e sem fazer as curvas de lado. Que é o mesmo que chegar a casa de madrugada depois de um amigo te dizer “Vamos sair, mas é só um copo e voltamos para casa, prometo”. O que aconteceu na realidade foi algo bem diferente, como se poderão lembrar.

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Feliz ou infelizmente, no Drive it Day não deixaram soltar os cavalos, e todos os carros (lembrem-se, cerca de 200) foram obrigados a circular ordeiramente, uma pena. Ainda assim, não impediu que alguns fora-da-lei iniciassem um despique, realizando ultrapassagens tanto embaraçosas como inconscientes, pondo em risco a segurança e o ambiente tranquilo que se quer num evento destes, onde inclusive participavam várias crianças e familiares dos condutores. Encarar um simples desfile como um picanço e largar nuvens de fumo preto numa ocasião destas é no mínimo despropositado. Mas afinal de contas, o que interessa é gostar de carros, cada um à sua maneira. Não é?

Ao final da manhã, já com a maioria dos participantes fora do recinto, juntaram-se algumas caras conhecidas à conversa. Entre eles o Hugo no Fiat 850 Coupe, o David na Giulietta 2.0 e ainda o meu “vizinho” Mané Loures com o famoso MGB GT Azul, que já não via há meses. Foi uma manhã em pleno, e um disparo não oficial que marca o início da época para os clássicos. Vemo-nos por aí, de clássico, obviamente.

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