The Indian Job

The Indian Job - Pt.3 "O trânsito em Nova Delhi" by Joel Araújo

Tempo de leitura: 5 minutos
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A batalha

Conduzir em Nova Delhi é uma batalha que só se vence por atrito.
Recentemente a Índia ultrapassou a França e é neste momento a 6ª maior potência económica do mundo.
Sem querer elaborar, imagino que a abundância de vias de comunicação, a qualidade das infraestruturas rodoviárias e a velocidade a que elas permitem a circulação de pessoas, mercadorias e ideias sejam determinantes nestes rankings.
Não na Índia.

As estradas (...) são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas.

Na Índia não se chega rápido a lado nenhum. O pára-arranca ainda é a regra e não a excepção reservada às horas de ponta. Exemplifiquemos: O hotel onde me encontro, situa-se a sensivelmente 2 km dos escritórios para onde tenho que me deslocar diariamente. Apesar de ser norma partir do hotel pelas 9h15 da manhã, fazer os 2000 metros até ao destino já demorou entre 15min a 2h. Esta janela de tempo é influenciada por seis factores diferentes, alguns deles de natureza humana, outros não.

 
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O Clima:
Julho e Agosto é o pico das monções na Índia. O sistema de escoamento de águas é deficiente, quando não é inexistente. Quando chove o trânsito não anda, é tão simples como isto. Submerso em cada poça de água pode estar uma pedra, um buraco, ou até pode nem estar nada. Mas o risco não vale pela aventura, então toda a gente vai à volta, o que, em todos os casos, implica enfrentar de frente o trânsito inverso.

 

O condutor:
O nosso meio de transporte principal é o shuttle do Hotel, que é gratuito num raio considerável. Vamos rodando à boleia com diferentes carros e condutores da frota, e o fascinante é que cada um segue caminhos diferentes para fazer a mesma viagem. Todos eles com as suas particularidades e obstáculos, mas igualmente morosos entre si. Nos dias em que não há shuttle disponível, o hotel chama um Taxi privado, daqueles que gostam de mostrar a paisagem aos turistas, vocês percebem.

 

O ecossistema rodoviário:
As estradas, sejam elas secundárias ou principais, são sempre partilhadas com uma panóplia de veículos e não-veículos com andamentos, características e poderes distintos. Imaginem isto como um jogo de cartas: Os automóveis são rápidos e confortáveis, mas precisam de espaço para circular. Os Tuk Tuk são mais pequenos que um automóvel, mas maiores que uma mota ou bicicleta, com a vantagem que transportam mais gente. Os carrinhos de venda ambulantes são empurrados por pessoas, logo são lentos, mas têm a habilidade especial de vender chamuças. Os camiões são grandes e carregam muita gente ou mercadorias, mas o seu poder só fica activo entre o pôr e o nascer do sol. A carta mais forte, contudo, é a vaca. Apesar de não ser um meio de transporte nem ter utilidade na via pública, se lhes tocas, acaba o jogo.

 

Os pedestres:
Quem anda a pé também faz parte do trânsito, quer queira, quer não. Os passeios para pedestres existem, mas grande parte das vezes não servem o seu propósito original.
Quero dizer: Ou estão ocupados com carros, motas ou bicicletas estacionados ou, na pior das hipóteses, por lixo ou lama, e ninguém gosta de chegar ao trabalho com os sapatos cobertos de lama. Nestas condições, é mais seguro andar a pé no meio da estrada do que na berma.

 

A condição das estradas:
A degradação das estradas é um processo visível a olho nu, sem preciso olhar com atenção. Estradas que ainda há 2 meses atrás eram “boas”, hoje têm buracos que desafiam até os mais aptos Jeep (cof cof) Mahindra a circular. A organização dos acessos, vias de aceleramento e abrandamento, cruzamentos e pontos de inversão de marcha são também, no mínimo, abstratos e totalmente abertos a interpretação.

 
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Velocidade média:
Este não é tanto um factor em si, mas uma consequência. A velocidade média numa estrada normal em Nova Delhi não ultrapassará os 20km/h. Ainda assim, temendo que esta velocidade seja exagerada, foram instaladas lombas enormes por todo o lado, e nem as Expressways, as autoestradas mais liberais, se livram de abrandadores artificiais.

 

Conclusões:
Todas estas condicionantes levaram os condutores a adoptar comportamentos que, a curto prazo parecem ajudar, mas na verdade só dificultam ainda mais o exercício da condução nesta cidade. Uma estrada com duas faixas de rodagem é facilmente ocupada por 5 filas paralelas de carros.

Mais carros a circularem no mesmo espaço significa bom aproveitamento do espaço, não?

– Não.

A acompanhar esta fricção, não esquecer a banda sonora oficial das estradas indianas:
A buzina. Felizmente, na Índia, buzinar não é visto como o acto ofensivo e insultuoso que reconhecemos em Portugal. Aqui, buzinar não é fazer mais do que acionar um sonar para avisar todos os veículos próximos da nossa presença.
Não é raro ver-se escrito “Por favor apita” na traseira de Taxis, camiões ou carrinhas.

E é por isto que eu adoro a Índia.
 

Próximo episódio:
Pt.4:
"Uma autoestrada na Índia"
 

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Esta história foi
escrita
ao som de:

 

The Indian Job - Pt.2 "Branco mais branco, não há" by Joel Araújo

Tempo de leitura: 3 minutos
 

Episódios anteriores:
Pt1:
 “Normal speed suits every need”

Branco mais branco, não há

Lidar com os números

Existem 9 milhões de bicicletas em Pequim. É um facto. Ninguém o pode negar. É uma pena que nunca ninguém tenha escrito uma canção sobre os 10 milhões de veículos registados em Nova Delhi. Imaginem uma mistura enriquecida pela textura e cor do Punjabi, com o ritmo frenético e caótico do Punk-Hardcore e o exercício de paciência de 30 minutos em que no fim não se chega a lado nenhum, como em qualquer música de Post-Rock. Temo que não seja a receita ideal para um Grammy, ainda assim 10 milhões é um número impressionante, sejamos sinceros. Contudo, não é a quantidade que é importante aqui. “Olha, sabias que Nova Delhi tem tantos carros como Portugal tem habitantes?”. Daquelas informações tão relevantes como saber que na Suíça é proibido possuir apenas um porquinho da guiné. A verdade é que, em Nova Delhi, os engarrafamentos e trânsito fazem parte da cultura rodoviária, e não é só pelos números exagerados. Todos os veículos fazem parte de uma dança descoordenada, sem nunca se tocarem, sem nunca se enervar, sem nunca reclamar. Não existe pressão social para conduzir bem na Índia, e quando ninguém leva a mal, é porque deve estar tudo bem.

 
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A invasão nipónica
Para além de música, o trânsito de Nova Delhi relembra-me constantemente da lenda popular das amendoeiras. A princesa do norte aqui também tem saudades de neve, com a única diferença que nem um rei consegue espaço nesta cidade para plantar as árvores de flor branca. A solução para este problema necessitaria de um toque de improviso indiano: Pintar todos os carros de branco garante que a princesa nunca volte a sentir saudades de casa: Seja a andar de Táxi, Uber, carro privado, autocarro, carrinha de transporte de mercadorias, camião ou Tuk Tuk elétrico. Todos os veículos nesta cidade são brancos.

O povo da índia é vaidoso, e o seus carros não são excepção.

Todos, apenas com duas excepções: Os Tuk Tuk normais, que são verdes e amarelos, e carros alemães. Os carros alemães (não que veja muitos) são todos vermelhos, por alguma razão. Eu devia estar feliz, afinal 90% dos carros desta cidade são Japoneses, com alguns Tata e Hyundai à mistura. Ainda assim, há algo na sensação de ver constantemente Toyotas, Suzukis e Hondas com nomes estranhos de há 2 gerações atrás que não preenche a alma. Principalmente quando não há um carro nesta cidade que não tenha um pára-choques batido, uma porta empenada, um vidro rachado, uma jante riscada. Não que isto seja importante, visto que a única comodidade obrigatória nos carros indianos é ter o ar condicionado a funcionar. O resto pode esperar.

 
 

A vaidade das massas
Não me interpretem mal. O povo da índia é vaidoso, e o seus carros não são excepção. Não é raro ver carros decorados com fitas vermelhas (de presente), jantes especiais, barras de proteção, figuras religiosas e decorativas no tablier e decorações coloridas. E por falar em decorações coloridas, não vão acreditar no nível de detalhe e mestria presente nas pinturas dos camiões de transporte de carga. O último que vi tinha farolins em forma de sardinha, não estou a gozar. Desengane-se quem pensa que no meio deste parque automóvel variado, o Tuk Tuk é veículo de segunda. O último em que andei tinha faixas de leds coloridas no tejadilho que piscavam como uma discoteca, ou boate foleira, vá. Na “bagageira” o subwoofer deixaria envergonhados muitos condutores de Ibizas ou Civics em Portugal, além de que o condutor só parava o shuffle quando garantisse que era mesmo a música que nos queria mostrar.

Não tem sido aborrecido, não. Ainda assim, é quando baixo a guarda que aparece um BMW M4, um Rolls Royce Ghost ou até um Maybach 57 (ou 62?). Bravos e corajosos, estes felizes afortunados.

Próximos episódios:
Pt.3: "O trânsito em Nova Delhi"
Pt.4: "Uma autoestrada na Índia" (para terminar em beleza)

 
 

Esta história foi
escrita ao som de:

 

London Grammar
Truth is a Beautiful Thing
(2017)

The Indian Job - Pt.1 "Normal speed suits every need" by Joel Araújo

Tempo de leitura: 3 minutos

Imagem por: Gen Design Studio

Normal speed suits every need

O mote

Esta frase pode ser lida em várias placas espalhadas pelas principais vias de trânsito da cidade de Nova Delhi. Em Portugal teríamos simplesmente sinalética vermelha ou azul com velocidades máximas e mínimas obrigatórias. Em Portugal. Na Índia as coisas não funcionam assim. Na índia, uma regra não é mais que uma mera sugestão.

Definir “normal speed” fica ao critério de cada um. Da mesma forma que os horários de trabalho, o valor de um lenço de caxemira ou o número de pessoas que cabem num Tuk Tuk*, ficam ao critério de cada um.

*O recorde vai em 15.

 
 

Once in a lifetime
Algures em Março ou Abril, a Gen perguntou através de um inocente mail, quem estaria disponível a ir para a índia durante uns tempos, com dois objectivos muito específicos: Descobrir se o latão oxida, e trabalhar em conjunto com um cliente de longa data, que inclusivé já possibilitou viagens anteriores.

Sem sequer pensar, alistei-me na recruta, mantendo porém fracas expectativas de ser selecionado. Fast-forward até finais de Junho, e aqui estou eu, com outros 4 amigos. Um casado, outro semi-casado, outro com namorada e eu, um solteiro acabado de desembarcar em terras virgens. Todos diferentes, mas todos juntos numa verdadeira cruzada dos tempos modernos, munidos de computadores portáteis, protector solar, uma palete de Imodium e citronela, muita citronela.

 
 

Os primeiros dias
As nossas duas primeiras semanas cá foram assim: Perceber que tudo aqui funciona de forma orgânica, flexível e fortemente improvisada, fruto de anos a aperfeiçoar um sistema que por defeito é imperfeito. À chegada, logo à saída do aeroporto, todo aquele calor intenso, a mistura de cheiros, as apitadelas, a confusão (isto às 23h30) foram tão previsíveis que quase mereceram uma gargalhada. Estamos por nossa conta, e eu estou a adorar cada minuto.

Dois meses na Índia equivalem a pelo menos quatro meses em qualquer outra parte do mundo, portanto nesta mini-série de estórias, vou partilhar um pouco do que é a realidade automobilística neste novo mundo, dividindo-as em 4 episódios:

 

Próximos episódios:
Pt.1:
Normal speed suits every need.
Pt.2: Branco mais branco, não há.
Pt.3: O trânsito em Nova Delhi
Pt.4: Uma autoestrada na Índia (para terminar em beleza)

 

As expectativas
Neste país, a linha que separa um péssimo condutor de um excelente parece-me muito ténue, e é algo que ainda não aprendi a avaliar. Algo que, paralelamente ao comportamento químico do latão, irei descobrir até Setembro.

Podem ver mais fotos nas publicações regulares sobre a viagem nas stories do meu Instagram

 

Esta história foi
escrita ao som de:

 

Between the Buried and me
Automata II
(2018)